Género
Homens e mulheres. Economia ganha menos com igualdade
Publicado em 16 de Outubro de 2009
"Os homens costumam ser conotados como força de produção; as mulheres são força de reprodução", critica Catarina Marcelino
A existência de mais igualdade de oportunidades entre homens e mulheres seria decisiva para aumentar os níveis de emprego em Portugal, mas teria um impacto pouco expressivo na criação de riqueza quando comparado com os outros países da União Europeia (UE).
Numa situação óptima (igualdade total entre homens e mulheres no acesso ao emprego), o aumento do produto interno bruto (PIB) de Portugal continuaria a ser prejudicado pela tradicional discriminação das mulheres em relação aos homens, como mostra um estudo encomendado pela presidência da União Europeia, a cargo da Suécia. O facto de muitos sectores produtivos serem pouco competitivos e obsoletos explicaria o resto desse mau desempenho.
Razão: em Portugal há muitas mulheres excluídas do mercado de trabalho que, mesmo estando a produzir nos mesmos termos que os homens, continuariam a ser prejudicadas com salários tendencialmente mais baixos e com perspectivas de progressão profissional mais limitadas, apesar das mesmas habilitações e qualificações profissionais. Os acréscimos de produtividade seriam, assim, dos mais baixos da UE. Muitas mulheres continuam a ser responsáveis pela gestão da casa, por cuidar dos filhos e familiares idosos, o que coloca sérios entraves à sua realização profissional, explica ao i Catarina Marcelino, que acabou de cessar funções como presidente da Comissão para a Igualdade no Trabalho e no Emprego (CITE) para ocupar o cargo de deputada.
As conclusões sobre os impactos na economia da igualdade de géneros surgem num estudo da economista sueca Åsa Löfström, da Universidade de Umeå. O documento mostra que, numa situação de total equilíbrio de forças no mercado de trabalho, o PIB português apenas avançaria 16%, a terceira pior marca da UE. Mais baixo só na Bulgária (15%) e na Eslovénia (14%). A média europeia ronda os 27%.
O estudo, que serve de base de discussão para a conferência "A igualdade de géneros impulsiona o crescimento económico?", que começou ontem e termina hoje, explica que esse aumento no PIB português seria sobretudo explicado (em 57%) pela entrada de muitas mulheres no mercado de trabalho que hoje estão excluídas - por estarem desempregadas, ou ocupadas por trabalhos não remunerados, como cuidar dos filhos ou de familiares idosos - e menos por avanços na produtividade (que explicam 27% da subida potencial do PIB).
Catarina Marcelino explica que "Portugal tem uma das maiores taxas de participação feminina da UE no mercado de trabalho, um factor positivo que deve ser destacado". "O problema é quando se olha para as profissões. Para os mesmos níveis de habilitações, as mulheres ganham, em média, menos do que os homens e, normalmente, tendem a ficar com os trabalhos menos qualificados". A explicação é curta, mas forte: "Os homens costumam ser conotados como força de produção; as mulheres são olhadas como força de reprodução", atira a ex-presidente da CITE.
Na prática, "essa discriminação que ainda está muito enraizada no nosso país", reflecte-se nos salários. É nas profissões de topo que a discriminação de rendimentos é maior. "O gap salarial entre homens e mulheres ronda os 10% nas profissões de nível mais baixo, mas quando se sobe na escala vai piorando. Nos cargos de topo, a diferença ronda uma média de 30% a favor dos homens", lamenta.
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