Entrevista
João Pedro Rodrigues. "Não faço cinema militante homossexual" - vídeo
por Luís Leal Miranda, Publicado em 16 de Outubro de 2009
Depois de passar por alguns dos principais festivais, "Morrer Como um Homem" chega às salas portuguesas
Regressado de uma mini-digressão por festivais de cinema na América do Norte, o realizador João Pedro Rodrigues, 43 anos, sentou-se à mesa de um restaurante na Avenida dos Estados Unidos da América, em Lisboa, para falar do sua terceira longa-metragem.
"Morrer Como um Homem" estreou no Queer Lisboa, um festival de cinema gay. Incomoda-o estar conotado com o cinema homossexual?
Sou abertamente gay, isso não é um problema. O que me chateia é que isso possa ser redutor para o meu trabalho. Acredito no cinema em geral e faço filmes que não são destinados a pessoas em especial. O Queer Lisboa foi o único festival temático onde o meu filme esteve: Cannes, Toronto ou Nova Iorque, nenhum deles é um festival de cinema homossexual.
Faz cinema gay?
Não é esse o meu objectivo. Não faço cinema militante homossexual e acho até esse conceito um bocado absurdo. Se fosse assim podíamos dizer que todo o cinema é militantemente hetero, por exemplo.
Não teme que essas conotações façam com que menos gente veja os seus filmes?
Faço os filmes que acho que devo e quero fazer. Não sinto essa pressão. A comunidade gay - ou queer, como se diz agora, um tique politicamente correcto que odeio - não é a minha maior fã. Os meus filmes dividem sempre as pessoas.
O filme conta a história de Tonia, uma travesti em final de carreira. Como surgiu o enredo?
A primeira ideia da história vem no fim do filme "Odete" - aquela ideia no final de haver um género sexual flutuante prendeu-me. Decidi falar sobre transexuais. Nos anos 80, quando comecei a sair à noite em Lisboa, assisti a vários espectáculos de travestis. Muitos já morreram, outros mudaram de vida e houve uns ainda com quem acabei por filmar. Achei que os travestis eram o elemento fundamental para contar esta história.
Os actores são quase todos amadores. Como foi o casting?
Comecei por entrevistar vários travestis, transexuais, amigos de travestis e gente daqueles meios da noite. Quis conhecê-los, ouvir as suas histórias.
Foi fácil conseguir que falassem?
Até me surpreendeu a facilidade com que me recebiam. Fui apresentado a toda a gente por uma amiga minha e isso facilitou imenso. Criou-se uma espécie de bola-de-neve de amizades e abriram-se muitas portas. As personagens que conheci foram-se integrando na minha história
E o Fernando Santos, o protagonista?
Foi uma espécie de lento namoro. É uma pessoa conhecida no meio, que já faz show de travesti há 20 e tal anos. Conheceu muitas pessoas, muita gente que já morreu ou mudou de vida, não tem nada a ver com aquele meio. Ele guiou-me e ajudou-me a perceber como evoluiu isto desde os anos 70, os bares que apareceram, os primeiros shows. A partir de certo momento comecei a achar que tinha de ser o Fernando.
Porquê?
Porque tem um grande carisma e é um excelente actor. Há muitas coisas da personagem que vêm dele e de histórias que ele me contou. O Fernando tem ainda outra coisa: um corpo muito masculino, podia ser um camionista. E isso contradiz a ideia de que é ha- bitual o transexual ser efeminado.
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