Tecnologia
Houve um tempo em que o Twitter era português. Chamava-se Jarbas
por Ana Rita Guerra, Publicado em 14 de Outubro de 2009
Em 2003, um microblogue com limite de 160 caracteres revelou-se uma inovação tecnológica antes do tempo
O limite era de 160 caracteres e a tecnologia assentava no telemóvel. Cada pessoa podia criar um canal próprio, escrever sobre o que lhe apetecesse e difundir a informação para todos os seguidores que subscrevessem o serviço. Reconhece esta tecnologia? Não é o Twitter, é o Jarbas. Foi criado em Portugal em 2003, muito antes de Biz Stone e Evan Williams sequer sonharem em ter a rede social mais popular do momento.
"A criação do boletim custava 0,35 euros e cada mensagem tinha um custo residual de 0,06 euros", recorda o programador que desenvolveu o Jarbas, no início da década. Mário, especialista em novas tecnologias e que prefere não revelar o apelido, chegou a imprimir panfletos com publicidade a dizer "faça o seu microblogue". Contudo, a inovação tinha chegado muito antes do tempo. A Google tinha acabado de comprar o Blogger e o fenómeno dos blogues estava a explodir em Portugal, ao mesmo tempo que começavam a surgir os primeiros telemóveis com câmara e MMS.
No auge da popularidade, o Jarbas chegou a ter mais de mil utilizadores. Ao contrário do que o criador previra, os mais entusiastas eram entidades com as mais estranhas ocupações. Havia uma organização de produtores de batata na Golegã que emitia informações úteis para os agricultores, associações culturais que davam informações sobre a agenda de actividades e até câmaras municipais que difundiam boletins de cinema. O público em geral ainda não estava preparado para o fenómeno da rede social que surgiria poucos anos depois.
"Achava que os conteúdos nos telemóveis eram muito limitados", continua o criador do Jarbas, explicando porque se lembrou de criar um serviço desta natureza. O problema é que não tinha recursos de marketing e não conseguiu convencer as operadoras de telecomunicações a tornar o serviço gratuito. Na fase final do Jarbas, "apareceram os toques de telemóvel pagos e as meninas nuas", adianta Mário, e as operadoras acreditaram que tinham encontrado a galinha dos ovos de ouro. O Jarbas não se enquadrava neste novo negócio.
"Diziam-me que 160 caracteres era muito pouco, que não valia nada, e que as pessoas gostavam era de se sentar no sofá à espera que a informação lhes fosse enfiada pelas goelas", lembra o programador de software. É claro que estavam redondamente enganados, como o YouTube e o Twitter vieram provar pouco tempo depois.
Quando o Twitter apareceu, em 2007, o criador não conseguiu ignorar a semelhança em relação ao serviço que tinha desenvolvido. Mário, que na altura tinha 41 anos, defende que "Portugal é avesso à inovação" e que as políticas de incentivo não passam de "tretas". A verdade é que há vários exemplos como este em Portugal: tecnologias inventadas antes do tempo e que falharam, para serem sucessos internacionais de outras empresas. E mesmo quando são bem-sucedidas, como o cartão pré-pago inventado pela Portugal Telecom em 1995, não se lembraram de patentear o invento. Lá fora, ignora-se que a invenção é portuguesa.
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