Entrevista
Air. Hippies do século XXI com electrónicas e ar de rock - vídeo
por Tiago Pereira , Publicado em 14 de Outubro de 2009
Jean-Benoît Dunckel, uma das faces do duo francês, fala-nos dos segredos de uma banda que diz estar cansada de ser elegante e adulta
Jean-Benoît Dunckel fala num misto de inglês e francês que o próprio diz já fazer parte da sua linguagem. "É uma questão de electrónicas, tudo se mistura, parece-me que já é crónico". Quem nos fala, com alcunha "JB", é uma das metades dos Air, o duo francês que recentemente regressou ao discos. Tudo para dizer que "acabou esta coisa de electrónica elegante".
Se a elegância não é mais uma prioridade, o que devemos agora esperar dos Air?
A partir deste momento somos uma banda sexy, basta de seriedade, de vermos críticos e outros que tais a escrever coisas como "estes rapazes fazem música para gente adulta". Sei que aparecemos sempre arumadinhos nas fotos, que temos aquele ar francês cosmopolita, mas os nossos propósitos são outros.
Ou seja...
Este novo álbum, por exemplo, está feito para seduzir, é um disco de homens para mulheres, um conjunto de canções de embalar mas com outros propósitos.
Estamos, portanto, na era em que a guitarra já não é o instrumento mais sedutor do mundo, esta é a idade do sintetizador.
E não só. O sintetizador tem uma carga humana, muito corporal, que permite imaginar, recriar à nossa medida e em todos os universos. E o piano, com toda a sua sexualidade latente.
Por isso o título "Love 2"? Os nomes dos álbuns nem sempre são coisas dignas de grande explicação...
É óbvio demais, não é? Estivemos para mudar, à última hora, mas acabámos por aceitar o princípio clássico "são precisas duas pessoas para fazer amor". É um clássico, bem sei, mas as canções que fazemos também o são.
Apesar das electrónicas, do carácter futurista de algumas das composições dos Air, há quem vos classifique de "grupo vintage".
Bom, estamos neste negócio há alguns anos, é verdade, mas não nos consideramos ainda veteranos. No entanto o vintage fica-nos bem porque, apesar de toda a tecnologia, o nosso princípio é o mesmo dos que escreviam canções nas décadas de 60 e 70. Em estúdio procuramos recriar o Verão de 1967, queremos construir o verso perfeito antes do refrão ideal. Parece-me que isso pode ser vintage, é coisa que soa a elogio. Dizem que os Kraftwerk são vintage, por exemplo. Se assim é, quero fazer parte desse grupo. Aliás, voltei a comprar os discos todos deles, nesta caixa nova que por aí anda. Raios, alguma vez tudo aquilo que estes alemães inventaram será superado?
Devemos então concluir que está tudo criado na música electrónica? Um cenário um pouco desolador, não?
Não quero deixar aqui esse pesadelo apoteótico. Até porque a verdade é que estamos a seguir os ensinamentos de quem antes de nós descobriu a regra fundamental: acompanhar a criatividade musical com o conhecimento esforçado dos desenvolvimentos tecnológicos. E é claro que hoje podemos fazer coisas impensáveis há 30 anos. Essa é uma vantagem mas só se manifesta depois de conhecermos ao pormenor quem veio antes de nós.
Sobretudo quando gozam dos privilégios de poder ensaiar e gravar num estúdio novo.
Esse é o nosso mais recente mimo. É um ingrediente essencial para quem quer fazer vida entre palcos e discos: temos que nos tratar bem, cuidar dos nossos interesses. Caso contrário resta-nos apenas discussão, a resolução de dilemas.
Com a experiência que reconhecemos aos Air, as crises de relacionamento não são o acontecimento mais esperado. Ou é algo assim tão frequente?
Os Air funcionam como um casal. Já me disseram que é coisa de franceses, que nos outros países não é bem assim. Mas não acredito. Boa música só surge depois de boas discussões. O disco e os concertos servem para fazer as pazes.
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