Os referendos europeus lembram-me sempre aqueles jogos de futebol dos miúdos em que os perdedores roubavam a bola e arranjavam maneira de anular e repetir o jogo. Como foi o referendo do aborto e acho que vão ser, em Portugal, as consultas da agenda de usos e costumes: quando os "bons" perdem, quando a decisão não é a política, religiosa ou sexualmente correcta, de acordo com os outrora famosos ventos da História, agora chamados modernidade, repete-se. Até dar certo, isto é, ganhar o sim.
No caso da Irlanda, isto foi feito à luz do dia e sem quaisquer pruridos em termos de decoro ou decência médios: aos irlandeses foram vaticinadas as piores desgraças se se atrevessem a repetir o não. Como naquelas velhas "cadeias da felicidade" (e do azar...) que enviavam umas cartas absurdas, que tinham por único conteúdo mandar copiar a absurda missiva, não sei quantas vezes, e expedi-la para outros tantos destinatários. Com notícia de prémios aliciantes que teriam cabido aos obedientes, e terríveis desgraças aos relapsos.
Mas será uma boa táctica? Duvido muito. Depois de os franceses e holandeses matarem a Constituição Europeia (em seis referendos perder três era muito), o Tratado de Lisboa funcionou como uma daquelas operações do tipo da famosa receita leninista - um passo atrás, dois à frente, ou dois à frente, um atrás.
Ou o gourmand passar a gourmet; ou na célebre frase do Lobo para o Capuchinho "para melhor te comer"... (salvo seja!...)
Chumbada a Constituição, falhado o ataque frontal, fazia sentido esta estratégia indirecta. Já que o federalismo na sua crueza é difícil de engolir pelos povos, que ainda querem ser independentes, arranjam-se fórmulas intermédias que desmobilizam as resistências e dividem os resistentes.
É claro que ninguém se atreve a repetir um referendo na França ou na Holanda, pela mesma razão que os americanos no tempo de Clinton impuseram os "direitos humanos" e o sinistro Père Aristide ao Haiti, mas deixaram a China sossegada. E falta o "senhor não", o presidente Václav Klaus da República Checa ser convencido com uma proposta que não possa recusar...
A partir de Maio de 2010, é natural que os conservadores ingleses voltem ao poder. Se bem que Cameron não tenha sido explícito, no congresso dos Tories em Manchester, sobre se levará o referendo para a frente - se o Tratado de Lisboa entretanto tiver entrado em vigor, também pode acontecer. Vamos ver.
Ninguém nega os benefícios da Europa económico-financeira e fiscal. Mas passar da comunidade económica - o grande sucesso da União - para a unidade política, como se fosse um epifenómeno ou se tratasse da mesma coisa, é que parece extraordinário!
Tanto mais que o paradigma de que a política segue a economia, nesta matéria, está fora de questão: nas últimas duas décadas globalizou-se a economia e fragmentou-se a política; quer dizer o mundo é mais unido nos mercados e mais diverso nos Estados. Boa ou má, esta é a realidade.
Professor universitário




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