Futebol internacional

A bola por baixo das pernas, o punho erguido: aniversário de um golo - vídeo

por Rui Miguel Tovar, Publicado em 13 de Outubro de 2009   
A Irlanda do Norte celebra hoje o 33.º aniversário da finta de Best a Cruijff num célebre jogo em Roterdão (Holanda)
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Há o dia da mãe, do pai, da criança, do professor, da árvore, do periquito e mais alguns et cetera. Na Irlanda do Norte há tudo isso mais George Best. E o país, pequeno e dividido, pára. Como hoje, 13 de Outubro, dia em que os irlandeses celebram o 33.o aniversário da finta do seu deus ao holandês Johan Cruijff, num jogo de selecções, em Roterdão, de arranque na qualificação para o Mundial-78.

Estávamos em 1976 e Cruijff, com 29 anos, estava no pico da forma, figura maior do Barcelona e já eleito três vezes o melhor da Europa com a Bola de Ouro da revista "France Football" (1971, 1973 e 1974). Best, por seu lado, estava na curva descendente da carreira. Com 30 anos, o irreverente quinto Beatle, como era alcunhado, já emigrara para os EUA, depois de abdicar do profissionalismo dois anos antes. "Era regras e mais regras. Eu só queria jogar à bola e eles [dirigentes e treinadores do Manchester United] impunham horários para treinos, estágios, concentrações. Não estava para aquilo", justificou Best, que, entre 1974 e esse jogo de Roterdão, fez um total de 35 jogos, na África do Sul (Jewish Guild), Inglaterra (Fulham), República da Irlanda (Cork City) e EUA (Los Angeles Aztecs).

Fora de série Em 1976, o futebol era outra coisa. Não havia cá "prime donne" nem seguranças para impedir o que quer que fosse. Por isso, os jornalistas ficavam no hotel da selecção, quando esta jogava fora, conviviam com os jogadores e até iam para os jogos no mesmo autocarro. Foi o que aconteceu a um jornalista inglês do "Daily Express", que acompanhava o Manchester United na altura em que Best ofuscava nomes como Bobby Charlton e Dennis Law. "O primeiro objectivo era ter os números de telefone de cada jogador do plantel. Fiquei com a agenda completa. Todos me deram um número. O Best deu-me 19! O da casa da mãe biológica, o da casa da mulher que cuidava dele em Manchester, que ele considerava uma espécie de mãe, os do bares onde costumava ir, os dos melhores amigos e alguns, poucos, de mulheres", conta Bill Elliot ao i.

De volta a 1976, com Elliot na primeira pessoa. "Sentei-me ao lado dele, no autocarro para a banheira de Roterdão. Cruijff estava no auge. Best não. Perguntei-lhe o que achava do holandês e ele respondeu-me 'outstanding' [fora de série]. 'Melhor que tu?', arrisquei. Ele olhou para mim e deu uma gargalhada. 'Estás a brincar comigo, não estás? Eu digo-te o que fazer ao Cruijff esta noite. Vou fintá-lo na primeira oportunidade que tiver', e ambos nos rimos. Um par de horas depois, os jogadores irlandeses foram anunciados um a um. Pat Jennings, o guarda-redes, foi o primeiro a sair do túnel para o relvado. Best foi o último. O megafone soltou 'e agora o número 11, Georgie [grande pausa] Best'. E ele lá apareceu, acompanhado de uma loura espampanante, com uma rosa na mão. Era impossível não dar espectáculo, por isso Georgie aproximou-se dela, tirou-lhe delicadamente a rosa, beijou-lhe a mão como um cavalheiro e correu para o meio do campo com o braço bem levantado. E o público, mais animado que nunca, aplaudiu."

Finta "Aos cinco minutos, Best recebeu a bola no lado esquerdo. Em vez de a cabecear para iniciar um ataque pelo seu extremo, dominou-a com o peito e foi para dentro. Fintou três holandeses até chegar a Cruijff, no lado oposto do campo, o direito. À frente de Johan, mexeu os ombros duas vezes para um lado e para o outro, como se fosse fintar, e, enquanto isso, colocou-lhe a bola entre as pernas, recolhendo-a de seguida, com o punho erguido. Só alguns jornalistas entenderam aquilo. Eu era um deles."

Cruijff não levou a mal o atrevimento de Best. "Lembro-me desse lance e desse jogo, que acabou 2-2", recordou o holandês no dia em que Best morreu, em 2007. "Dentro do campo, ele era um louco são. Fora dele, um bom rapaz. No Verão desse ano [1976], passámos as férias no mesmo sítio, em Marbella. Aliás, esse Verão e muitos outros. E depois ainda nos encontrámos nos EUA. Um dia [22 de Julho de 1980], eu pelos Washington Diplomats e ele pelo San Jose Earthquakes, fizemos um jogo inesquecível, que acabou 5-4 para a minha equipa. Cada um de nós marcou um golo."

 

No YouTube encontram-se dezenas de tributos a George Best, como este - "The Belfast Boy".



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