José Sócrates está feliz porque, a nível nacional, conseguiu um resultado idêntico ao das legislativas. Segurou Lisboa e, globalmente, teve mais votos, mais 22 câmaras que em 2005, mais maiorias absolutas e mais eleitos.*
"Só 4,25% do que se diz sobre ele é garantido", diz a nova publicidade do BES que tem Ronaldo como estrela. Com Sócrates é mais ou menos o mesmo. Diga-se o que se disser sobre ele, saiam as notícias que saírem, ele dura e dura e dura - como as pilhas Duracell. Ontem conseguiu um resultado idêntico ao das legislativas (à volta dos 37%), segurou Lisboa, uma disputa difícil, perdeu o Porto - a derrota da ex-adversária Elisa Ferreira não o deve ter entristecido demasiado - e simbolicamente arrancou Ourém e Castro D'Aire ao PSD, conhecidos bastiões laranja. Mas Sócrates é um pragmático, as eleições de ontem são cócegas se comparadas com a tensão que se aproxima. Vêm aí seis meses de violento confronto nacional. Resistirá o primeiro-ministro sem maioria absoluta no Parlamento? Vai querer eleições antecipadas daqui a seis meses, quando se abrir a janela que permitirá ao Presidente dissolver a Assembleia da República? Hoje, Sócrates será indigitado primeiro-ministro e convidado a formar governo. É esta a sua grande preocupação. Os ministros que escolher dirão muito sobre o tipo de governação que espera encontrar: pessoas experientes e com provas dadas para aguentar um período de intenso combate e desgaste pessoal? Ou a aposta em alguns ministros mais novos e inesperados, capazes de compensar a falta de empatia entre o primeiro-ministro e uma parte do país? Demasiadas dúvidas no ar, a que se soma o duelo com Cavaco e uma crise económica que ainda fará muitas vítimas. O Orçamento do Estado e, antes, a apresentação do programa de governo, vão dizer que Portugal vamos ter em 2010.
Manuela Ferreira Leite está infeliz porque perdeu Lisboa, perdeu Leiria
e não conseguiu mais votos em termos nacionais do que o PS, apesar de ter ganho mais câmaras (138). A liderança do partido está em jogo. Manuela não tem espaço.
A ainda presidente do PSD vive uma situação insólita. Consegue unir apoiantes (discretos) e críticos (ferozes): todos a querem substituir, a única divergência tem a ver com o prazo para que deixe a liderança. Quem a ataca de frente, como o eterno jovem turco Passos Coelho, insiste na urgência de mudar imediatamente. Quem a defende atacando, como Paulo Rangel e Marcelo Rebelo de Sousa, prefere que Manuela se aguente no lugar até Maio, altura em que o mandato chega ao fim. Seja como for, o epílogo está escrito nas estrelas: mesmo que ontem o PSD tivesse arrancado uma vitória soviética, Manuela não retiraria daí o suplemento vitamínico capaz de inspirar uma vida extra. Mas nem isso conseguiu: não fosse a vitória de Rui Rio, a noite teria sido quase desastrosa. Até a vitória de Menezes sabe a derrota. Game over para Manuela, portanto. Dito isto, o resultado muito honrado de Santana em Lisboa aumentará ainda mais a confusão no PSD. Agora há mais uma facção em jogo – a dos santanistas –, sem nada realmente para fazer. Quer isto dizer que Santana será tentado pela liderança? A tentação é o seu maior pecado, mas ele sabe que as cinzas da sua passagem pela presidência do partido estão na origem do fogo que está a reduzir o PSD a escombros. A resposta é, portanto, não: Santana não voltará, embora as suas tropas tenham agora de encontrar oxigénio para respirar. Estará, então, ao lado de Passos? Não. Com Rangel? Também não. Para onde irá o terço santanista do partido? E Marcelo, o Joker que não se exclui do baralho e baralha tudo, o que fará? OPSD é mais incerto do que a economia.
Jerónimo de Sousa está infeliz porque já vão longe os tempos das gloriosas noites autárquicas. O PCP mantém-se como terceira força nacional, longe do Bloco, mas a hemorragia continua.
Perdeu a Câmara de Aljustrel, que controlava desde 1974. Também perdeu Beja, Marinha Grande e Alcácer do Sal. Perdeu para socialistas e para candidaturas independentes. Perdeu votos em relação a 2005 e deixou escapar câmaras e mandatos. Resumindo: menos votos, menos autarquias, menos maiorias absolutas, menos eleitos. Dito assim, parece uma hecatombe ou uma desilusão radical. Não foi. O facto de o PCP continuar a ser a terceira força política autárquica traduz, pelo menos, uma vitória clara em relação ao Bloco de Esquerda – nos tempos que correm, já não é mau de todo e a verdade é que Louçã tem mais feridas para lamber. Jerónimo de Sousa aguenta o embate: resistir, resistir e resistir é, há muito, o mantra dos comunistas. Não se esperam revoluções na liderança, nem grandes mudanças. Os tempos que se aproximam vão ser de enorme turbulência. O PCP já deixou claro que não dará a mão a Sócrates.
Paulo Portas está feliz porque não tem razões para estar totalmente infeliz. Em relação a 2001, soma cerca de mais sete mil votos. A aliança com o PSD resultou, mas sem brilho.
Não é um resultado para gritos. A imagem cinzenta da sede de candidatura de Lisboa traduzia a meia desilusão de Paulo Portas depois do êxito nas legislativas e nas europeias. À terceira eleição, o CDS bateu no seu tecto e não conseguiu muito mais do que em 2005. As alianças com o PSD não permitem uma análise mais fina dos resultados: o que valeriam os centristas sem os social-democratas? Por exemplo, no Porto, a boleia de Rui Rio foi essencial e assim aconteceu noutras câmaras. Em Lisboa, o óptimo resultado do derrotado Santana Lopes também terá tido uma valiosa ajuda de Portas – os dois, em campanha, são um duo imparável e a prova de que, juntos, Santana e Portas valem mais do que a soma das partes. Pronto: agora fecha-se o ciclo autárquicas. O líder do CDS-PP tem a faca e o queijo na mão. Desta vez, não haverá limiano no Orçamento do Estado, mas a bancada de Portas, junta, tem os votos que farão Sócrates salivar de desespero.
Francisco Louçã está infeliz porque o Bloco nasceu nas cidades e foi aí que ontem chocou com a realidade: não elegeu vereadores em Lisboa e no Porto. Ficou quase como em 2005.
Tudo o que sobe acaba por descer. O Bloco é um bloco ou, afinal, um balão que rebenta facilmente? Francisco Louçã pode fazer as contas que quiser, dizer que conseguiu mais votos do que em 2005, mas o resultado de ontem, com a derrota em Lisboa e no Porto – não elege um único vereador nas duas grandes cidades do país –, expõe a fragilidade política de Louçã. Para um partido urbano como o Bloco, falhar tão estrondosamente depois de duplicar o número de deputados nas legislativas significa que o partido ainda não é um partido, é um pólo que reúne descontentes ocasionais. Não tem militantes, tem activistas. É um partido de protesto que precisa de um adversário directo muito desgastado para crescer à custa dele. O facto de as autárquicas não serem eleições centradas nos líderes também prejudicou o BE – que tem pouca vida sem o nervo de Louçã. Dava jeito ter mantido Sá Fernandes em Lisboa. O Zé, afinal, faz falta.
* Resultados apurados até às 1h45




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