Economia
Com primeiros sinais de retoma espreitam as habituais fraquezas
Publicado em 10 de Outubro de 2009
Euro forte e subida esperada dos juros em 2010 voltam a confrontar Portugal com os seu problemas estruturais, que podem atrasar a retoma
Enquanto a Europa vai começando a recuperar timidamente da maior recessão do pós-Segunda Guerra Mundial, começam também a espreitar os habituais coletes-de-forças da economia aberta portuguesa: euro mais forte e juros com tendência para subir. Estes dois instrumentos de política económica - sobre os quais Portugal não tem qualquer poder de decisão - deverão voltar a expor duas fragilidades estruturais da economia: a falta de competitividade das exportações e o alto nível de endividamento.
"O euro alto é claramente um obstáculo para as nossas empresas exportadoras, quer quando concorrem nos mercados dos EUA, do Brasil ou da China, quer mesmo no mercado europeu, aberto à concorrência mundial", admite Joaquim Cunha, presidente da Associação Portuguesa de Pequenas e Médias Empresas.
Desde Fevereiro deste ano a moeda única já ganhou 16% contra o dólar, estando agora cotado na casa dos 1,47 dólares. A maioria dos analistas sondados pela Reuters espera que o euro se mantenha no nível actual, não excluindo, contudo, uma nova subida para os 1,5 dólares até ao final do ano. A fraqueza do dólar será uma realidade ao longo do próximo ano - por um lado porque o gigantesco défice público norte-americano (que triplicou num ano) continua a pressionar o valor da moeda; por outro, porque é do interesse dos Estados Unidos manter uma moeda mais fraca para desvalorizar as suas dívidas e reequilibrar o défice externo (que, segundo dados ontem publicados, voltou a cair em Agosto).
O euro forte é um peso extra sobre a recuperação da economia europeia - para onde Portugal vende cerca de 80% das suas exportações -, mas tem impactos diferentes na zona euro. "A Alemanha tem um padrão de tecnologia e valor alto nas suas exportações e por isso pode resistir melhor à apreciação do euro", aponta Paula Carvalho, economista do Banco BPI. Portugal tem um padrão mais baixo, de intensidade média, "e por isso o impacto é maior". Para as empresas nacionais - em que a produtividade continua a cair, revelam os dados do Banco de Portugal -, o euro forte aumenta a pressão para reduzir custos de outra forma: a recuperação portuguesa não deverá levar a uma subida significativa dos salários.
Outra camisa-de-forças está no endividamento elevado e na subida dos juros esperada no próximo ano. Para já, as famílias portuguesas beneficiam das taxas mais baixas de sempre, mas esta realidade tem um prazo - com a recuperação das grandes economias europeias, o BCE vai procurar impedir as pressões inflacionistas. "O impacto vai começar a ser sentido nos orçamentos familiares e na factura dos juros da dívida pública", aponta o economista João Duque.
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