Moda
O Diabo Veste Prata: Inside Moda Lisboa
Publicado em 10 de Outubro de 2009
O humorista e argumentista Eduardo Madeira esteve no evento com mais estilo do momento
O que faz um humorista na Moda Lisboa? Na melhor das hipóteses vai recolher material (e ele há lá tanto...). Na pior das hipóteses vai para lá e espatifa aquilo tudo de uma ponta à outra, tipo Bruno (o do Sasha Baron Cohen). O i convidou-me para a melhor das hipóteses e, ao contrário do que estava à espera, não me senti tentado a enveredar pela pior. E porquê?
Primeiro, porque é tudo muito organizadinho. Nisso difere totalmente da maioria dos eventos em Portugal, sejam desportivos, sejam artísticos, sejam outros quaisquer. Não há cá bandalheiras, nem coisas fora do sítio, nem papelada espalhada pelo chão, nem caterings manhosos (só havia queques, saladas e quiche. Ah, e sushi, obviamente), nem nada dessas coisas tão nossas.
Parecia que estava em Nova Iorque. E, logicamente, não estava. Embora estivesse na Moda Lisboa, que, por acaso, alguém sem GPS e com uma visão lata da geografia lusa decidiu que devia ser em Cascais.
Mas o que é certo é que tudo por ali corre bem e faz sentido. Nota-se ali mão feminina, naquela arrumação toda. Ou então masculina com uma sensibilidade muito especial. O que é o mais certo. E resulta. As filas são ordeiras e silenciosas, o público é civilizado e modernaço, as pessoas são tão ultramega-sofisticadas que até nos sentimos mal, as mulheres são bonitas e parecem informadas, a maior parte do pessoal passa a ideia de que tem muito mundo, o pessoal usa óculos e kispos terrivelmente fashion. Enfim, por motivos de identificação com o país real, quase senti falta de ouvir alguém de bigode, chinelos e meias a gritar algo do género: "Então mas isto anda ou não anda, catano?!"
Ali era impensável, credo.
Segundo, não dá para destruir aquilo por causa das passagens em si. Já tinha visto alguns desfiles, embora não seja propriamente o tipo de pessoa que mete na Moleskine "não perder a Moda Lisboa por nada deste mundo".
A passagem a que assisti, devo dizer que adorei. O termo "adorei" tem aqui um claro défice de testosterona, mas caramba, aquele ambiente sempre mexe connosco. E afinal de contas não é nada que uma futebolada com os amigos não cure.
Voltando ao tal desfile que adorei, começo por dizer que era do Ricardo Prata. Um nome que eu desconhecia, mas que provocou na assistência a histeria que Aimar provocaria ao ir de surpresa à Casa do Benfica de Tondela.
E compreende-se. A roupa em si, feita para mulheres, era elegante e sóbria. Longe de alguns vestidos tipo cortinado que alguns criadores se lembram de fazer apostados seriamente numa estratégia não comercial que me escapa, mas que é uma coisa lá deles e eu não tenho nada a ver com isso.
No caso do criador Prata, tudo me pareceu de uma excelência a toda a prova. Sinceramente, quase dei por mim a bater palmas de pé e a gritar para a assistência:
"És grande! Pessoal, façam a onda!"
Acabava por ser expulso, por isso fiz muito bem em aguentar estoicamente um impulso tão parvo e despropositado para um hapenning com aquelas características. Também é certo que há ali umas coisitas que me escapam. E há uma então que já dei por mim a dispensar uma quantidade considerável do meu tempo a tentar decifrar (uns bons dois minutos, ou mais). E que consiste na verificação de que tudo aquilo, toda aquela roupinha, era no fim de contas para vestir só lá para o Verão de 2010. Ou seja, o que se via eram calções e roupinhas levezinhas e vaporosas de provocar um camadão de espirros só de olhar.
O que me faz chegar à conclusão de que a alta costura está para o vestuário como os frutos secos para a alimentação - não se comem na época, mas sim muito lá para a frente.
Eu confesso que não tinha memória disponível no meu disco rígido para guardar a ordem para comprar uns calções no Verão que tinha visto vestidos num tipo a desfilar uns seis ou sete meses antes. Ainda se fosse uns seis ou sete minutos... Resta dizer que a música e o cenário do desfile de Ricardo Prata eram também irrepreensíveis. Um must! Ainda estará na moda dizer um must, ou, como diz o Bruno, será que é demasiado 2001?
Terceiro, não me via a estragar, de uma forma insensível e cruel o espectáculo a que aquela mole humana estava a assistir de uma forma tão absorta e atenta. A dada altura olhei à minha volta e parecia que toda a gente estava a ver a chegada do homem à Lua, mas ao vivo. A atenção dispensada ao que se passava na passerelle era tanta que fiquei com a ideia que se aparecesse de repente o Presidente Cavaco em boxers e com uma marmota debaixo do braço a cantar uma polka ninguém reparava. O que até o poderia surpreender positivamente.
Quem vai ali vai mesmo para ver o que ali se passa, ao contrário do que acontece noutros eventos, em que as pessoas não fazem ideia do que está a acontecer. Aliás, como é o caso do Estoril Open, onde uma vez ouvi alguém dizer:
"Aí vai haver ténis também? Óptimo, têm de se fazer coisas para manter a animação!"
Isto é triste e ao mesmo tempo deliciosamente verídico.
Por último, não apetece nada dar cabo de uma coisa tão bonita e bem organizada também por causa das modelos. Deslizaram pela passerelle como deusas. Algumas tinham tão pouco peso que parecia mesmo que planavam. É impossível fazer alguma coisa de muito brusco no perímetro de 200 metros de uma modelo daquelas. Senti que um simples espirro, daqueles humanamente violentos e guturais que qualquer homem saudável pode dar uma ou outra vez, as poderia fazer esvoaçar até ao Guincho. E a Moda Lisboa, que começa em Cascais, podia assim correr o risco de acabar em Colares ou uma coisa do género. Mas há algo nessa fragilidade que nos prende e nos faz admirar tudo aquilo que ali se passa de uma forma silenciosa, respeitosa, ou mesmo religiosa. Aliás, uma ou outra rapariga estava tão fraquita e etérea que quase me benzi.
Conclusão. Vale a pena ir ao Moda Lisboa? Sim. Há um grupeco considerável de tias, há uma percentagem acima da média de famosos improváveis, tipo malta do rock e assim, há gente aparatosa e alegremente excêntrica, há uma porrada de gays que se vê que estão de bem com a vida e num sítio hiper friendly, há os melhores profissionais do mundo da moda, há os sponsors que bancam aquela festarola toda com uma prodigalidade quase out of fashion (Seat e L'Oreal, por exemplo), e há pessoas que lá vão, gostam e prometem voltar para ver uma colecção qualquer, nem que seja a da Primavera-Outono de 2018 do Moda Lisboa.
Moda Lisboa que por essa altura deve ser lá para Águeda ou noutro sítio igualmente identificável com a nossa capital.
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Artigo: O Diabo Veste Prata: Inside Moda Lisboa
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