“Ouvi um barulho, parecia que a casa estava a escangalhar-se. Abalou tudo. Está tudo destruído. Ficámos sem nada”.
Casaco de pele vestido - “foi o que consegui agarrar de dentro do armário às escuras, porque estava toda molhada” -, Maria Helena da Conceição mostra o estado em que o temporal da madrugada de hoje - “eram quatro da manhã” - deixou a casa onde vive com a mãe, em Picoinas.
Helena e a mãe, Alzira, com mais de 80 anos, são duas das seis pessoas que o mini-tornado que “varreu” os terrenos entre Areias e Bêco, no concelho de Ferreira do Zêzere, deixou desalojadas.
Em Milharadas, mãe e filho tiveram de deixar a casa onde funcionários da autarquia tiram já as telhas para arranjar a cobertura de uma construção frágil, que só voltará a ser habitada se tiver um arranjo maior.
Em redor, uma betoneira, uma fresa, um carro foram arrastados, uma laranjeira arrancada pela raiz, duas dezenas de pinheiros cortados a meio.
“Parecia que tudo estalava. Foi um reboliço”, recorda Maria Helena, lembrando ainda a aflição de se ver sem luz nem telefone.
Luís Ribeiro Pereira, presidente da Câmara Municipal de Ferreira do Zêzere, que passou pelos locais mais afectados na companhia do comandante dos bombeiros, Pedro Mendes, deu ordens para também a casa de Maria Helena ser de novo telhado.
O estado em que ficou, completamente encharcada, com pedaços do teto falso caídos, vidros partidos, electrodomésticos danificados, obriga a uma intervenção maior, admite.
Até lá, Maria Helena fica em casa do filho, enquanto Alzira foi levada para uma instituição de idosos do concelho.
Além destas duas casas, mais duas ficaram num estado que obriga à retirada dos residentes, uma em Casal do Zote e outra em Vale Porto Chão.
Joaquim Chambel, comandante distrital de operações e socorro, admite que, além destas seis pessoas, outras possam ter que ser retiradas porque as condições das suas habitações não oferecem o mínimo de condições de conforto.
Em Areias, a central fotovoltaica foi também atingida, com várias das estruturas de suporte dos painéis de energia solar retorcidas e alguns dos pilares arrancados do cimento.
As estruturas suportavam 5.000 painéis que iriam entrar em funcionamento em breve.
De acordo com as contas provisórias da autarquia, duas dezenas de casas terão sido afectadas, além dos barracões agrícolas destelhados.
Árvores, algumas centenárias, literalmente partidas ao meio, outras arrancadas pela raiz, outras ainda dobradas pela força do vento, castanhas, limões, laranjas, maçãs espalhadas pelo chão, chapas que voaram centenas de metros, um portão de ferro arrastado, são partes de um cenário que pontua a paisagem numa extensão de cerca de quatro quilómetros.
“Foi como se (o mini-tornado) tocasse nuns pontos, levantasse e tocasse noutros”, descreve Pedro Mendes.
Numa extensão em linha recta de cerca de quatro quilómetros, há quatro pontos atingidos, em vales ou encostas, tendo o mini-tornado passado por cima das elevações sem as tocar.
Joaquim Chambel sublinha que este começa a ser um fenómeno com alguma ocorrência regular no distrito, lembrando que nos últimos anos ocorreram situações idênticas, por exemplo, nos Amiais (Santarém, 2008), Salvaterra de Magos (2007), Vila Nova da Barquinha (2006




Rating: 0.0
Actividade em ionline