A atenção dedicada pelos
media a uma recente vaga de suicídios na France Telecom revelou um paradoxo no centro da sociedade francesa: mesmo com uma sólida protecção laboral, os trabalhadores sentem-se profundamente inseguros, muitos deles queixando-se de que o ritmo da mudança económica está a pressioná-los além dos seus limites.
De fora, a imagem que se tem do país é a de uma força de trabalho mimada, protegida do despedimento por uma segurança no emprego quase hermética e presenteada com uma semana de trabalho de 35 horas. Porém, a realidade é muitas vezes bastante diferente, de acordo com os especialistas, os representantes dos sindicatos e os próprios trabalhadores.
"Quando comecei a trabalhar como psiquiatra, há 35 anos, os meus pacientes falavam das suas vidas pessoais", diz Marie-France Hirigoyen, uma psiquiatra francesa que fez trabalhos pioneiros na área das agressões entre alunos e das relações no trabalho. "Agora só falam dos empregos. As pessoas estão a sofrer no local de trabalho. Pela lógica da gestão, isso não devia acontecer. Afinal de contas, têm um bom emprego, boas férias. Mas estão a sofrer."
Os 24 suicídios de trabalhadores da France Telecom desde Fevereiro de 2008 - oito desde o início do Verão, o último dos quais confirmado na semana passada - não são extraordinários numa empresa que emprega 102 mil pessoas em França.
A Organização Mundial de Saúde estimou para França, em 2005, uma taxa de suicídio de 26,4 por 100 mil para os homens e 9,2 para as mulheres. É a mais elevada entre as grandes economias europeias, mas ainda bastante inferior à do Japão. Nos Estados Unidos, as taxas comparáveis são de 17,7 para os homens e 4,5 para as mulheres.
Os especialistas em saúde mental são sempre extremamente prudentes na atribuição do suicídio a uma causa: quase nunca se sabe que forças actuam numa pessoa. Mas aquilo que chamou a atenção do público e do governo francês foi o facto de muitos desses suicídios e de mais de uma dúzia de tentativas falhadas terem sido atribuídos por alguns especialistas e autoridades laborais a problemas relacionados com o trabalho.
Harakiri durante uma reunião Há também aquilo que Hirigoyen descreveu como a natureza espectacular de alguns casos: um homem esfaqueou-se a si mesmo, numa espécie de harakiri, a meio de uma reunião (sobreviveu); noutro, uma mulher suicidou-se saltando de uma janela do escritório no quinto andar. O último caso foi o de um homem de 51 anos que se atirou de um viaduto.
"O stresse tornou-se um desporto nacional", diz Michel Marchet, secretário do sector bancário da Confederação Geral do Trabalho francesa (CGT). "Precisamos que os empregadores modifiquem a sua forma de organização do trabalho, mas não nos parece que isso possa acontecer em breve." Apesar da lei da semana de 35 horas, os dados da União Europeia mostram que em França se trabalhou em média 41 horas semanais no ano passado, o que a coloca no 13.o lugar entre os 27. (A Áustria ficou em 1.o, com 44 horas.)
Em 2006 e 2007, três técnicos que trabalhavam no centro de pesquisa e desen-volvimento da Renault, perto de Paris, cometeram suicídio, de acordo com Benoit Coquille, porta-voz da empresa. Nessa ocasião, os líderes do sindicato falaram de pressões no trabalho. Em resposta, Carlos Ghosn, o director-executivo da Renault, foi ao centro falar com trabalhadores e gestores. Foram enviados questionários detalhados a mais de 11 mil empregados e realizaram-se reuniões presenciais para discutir as condições de trabalho. Coquille afirmou que a empresa decidira voltar atrás e explicar as regras básicas de gestão através da cadeia de comando.
É impossível dizer que não houve mais suicídios relacionados com o trabalho, diz Coquille, mas, desde então, "não houve nenhum em que a relação fosse óbvia".
A France Telecom contratou a Technologia, a mesma empresa consultora que ajudou a orientar a resposta da Renault, para avaliar a sua situação. A France Telecom encontra-se numa posição bastante singular: apesar de uma privatização parcial em 1997, dois terços da força de trabalho da empresa ainda estão classificados como funcionários públicos e não podem ser demitidos. Contudo, até esse nível de segurança no emprego pode ser um factor de stresse.
Dura competição A France Telecom está a ser forçada a competir com empresas privadas num mercado global em movimento rápido. De 2006 a 2008, a empresa cortou mais de 22 mil empregos com partidas voluntárias. Quase metade eram trabalhadores que aceitaram quer a reforma antecipada, quer posições de funcionários públicos fora da empresa, ou que saíram para iniciar o seu próprio negócio com o apoio da empresa. Em comparação, o BT Group, o anterior monopólio telefónico britânico que tem estado a levar a cabo a sua própria difícil reorganização, cortou 15 mil empregos só em 2008 e anunciou o corte de mais 15 mil para este ano.
Sébastien Crozier, director da Confederação de Pessoal Profissional e de Gestão, que faz parte do sindicato geral da France Telecom, estimou que nos últimos cinco anos metade dos trabalhadores da France Telecom teriam mudado de emprego internamente, mudado de localização de trabalho ou ambas as coisas. Isso, segundo ele, criara uma sensação de insegurança e uma reviravolta constante.
Saídas forçadas Existe a sensação de que os gestores estão deliberadamente a tentar que os empregados saiam da empresa, afirma Crozier. Visto que desistir do estatuto de funcionário público implicaria sacrificar os benefícios de reforma, muitas pessoas, simplesmente, tentam aguentar, mesmo que tenham pouco de significativo a fazer ou sintam que não estão a ser aproveitadas eficazmente.
Em resposta a um aumento de atenção dos
media, a France Telecom anunciou que congelaria as transferências de trabalhadores até finais de Outubro, estabeleceria uma linha de apoio anónima para empregados perturbados e aumentaria o apoio psicológico e aos recursos humanos. "Somos a única operadora de telecomunicações estabelecida que não realizou despedimentos em massa", diz Olivier Barberot, director de Recursos Humanos da France Telecom. "A maioria das pessoas, o grosso delas, foram capazes de aumentar as suas competências e passar para novas funções", acrescenta. "Mas algumas tiveram dificuldades de adaptação." Numa entrevista, Xavier Darcos, ministro francês do Emprego, disse que o problema do stresse no local de trabalho não se confinava a França. Mas criticou a anterior abordagem da empresa, dizendo que a futura reorganização seria "mais supervisionada".
"Talvez ele tenha subestimado o efeito das transformações no pessoal e o impacto mediático", diz Darcos do director-executivo da France Telecom, Didier Lombard. "Estamos numa economia em transformação, e as ferramentas de avaliação usadas estão um bocadinho desactualizadas." Contudo, acrescenta, um emprego, mesmo sujeito a muito stresse, é melhor do que o desemprego. "Para nós, o desemprego é o fracasso absoluto", diz Darcos. "Preferimos ter pessoas que não se sintam completamente felizes no trabalho, ou que trabalhem a meio tempo, do que pessoas desempregadas."
A taxa de desemprego em França manteve-se nos 9,8% em Julho, um aumento de dois pontos percentuais em relação ao ano anterior. Provavelmente, teria sido ainda mais alta sem os programas governamentais para subsidiar a indústria automóvel, com o objectivo de manter trabalhadores no activo, ainda que fosse a meio tempo. Afinal, na France Telecom, algumas coisas são inevitáveis. Fazendo eco de comentários de Lombard e Darcos, Barberot, o director de recursos humanos da empresa, afirma: "Não podemos parar a reorganização."
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