Humor

Monty Python's Flying Circus: a ternura dos 40

por Joana Stichini Vilela, Publicado em 05 de Outubro de 2009   
A série revolucionou o humor e sobrevive ao teste do tempo, mas hoje nunca seria emitida
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O inglês Christopher Trace sonhava com uma carreira de actor, mas a coisa não lhe correu bem. Ainda assim ficou para a história: foi o primeiro apresentador do programa infantil da BBC "Blue Peter" (1958-67); demitiu-se depois de um escândalo sexual (um caso com uma recepcionista de 19 anos; ele tinha 34); e criou um novo estilo de comunicação com os garotos, ao anunciar seríssimo: "And now for something completely different".

Passados quase 40 anos da primeira vez que o actor John Cleese - também ele seríssimo, ora dentro de uma jaula, ora de biquíni - homenageou Trace no programa "Monty Python's Flying Circus", a frase é um clássico pop, traduzido, adaptado, parafraseado. Tal como muitos dos sketches dos seis intelectuais que se estrearam na BBC a 5 de Outubro de 1969 e revolucionaram o humor.

Oxford vs. Cambridge "Há uma ruptura definitiva", explica o guionista e fundador da Produções Fictícias, Nuno Artur Silva, um fã incondicional. "Eles eram todos tipos das universidades. De repente tínhamos sketches sobre filosofia alemã." Os Python preferiam o nonsense à sátira. Introduziram a violência no humor ao fazerem explodir personagens. Criaram sequências absurdas e oníricas. Mesmo a nível formal inovaram, dispensando punchlines e interrompendo cenas com animações surrealistas.

Cleese e Graham Chapman, educados em Oxford, tinham um estilo visual e conceptual, os restantes, vindos de Cambridge, tendiam para o humor verbal e agressivo. O resultado era tão inclassificável que foi preciso criar um adjectivo, "Pythonesco". Na altura, a série foi um "oásis na BBC" reforça Nuno Artur Silva. "Hoje talvez não fosse possível. Não há a liberdade que havia então." Foi Terry Jones, quando esteve em Lisboa em 2007, quem lho disse.

Python Remédios Passados 40 anos, os Python mantêm-se como principal referência no humor da equipa das Produções Fictícias, assegura o CEO. O Diácono Remédios e "a ideia de desmontar, e interromper o sketch para dizer: 'Isto é lamentável'" é "claramente inspirada" no trabalho deles. Herman José também reconhece que muitas das entrevistas a personagens suas "apanham boleia de ideias dos Monty Python, temperadas com a alegria infantil do Benny Hill". "Estiveram para o humor como os Beatles para a música", diz.

João Moreira, um dos criadores do desconcertante "Bruno Aleixo" permite-se discordar. Era fã da série e do estilo, mas considera-o "tão ultrapassado quanto o humor dos filmes do Vasco Santana. Foi bom, mas está lá para trás".

As Escolhas de

Herman José, Humorista
“Dead Parrot”
(Episódio 8, Temporada 1).
Cliente e empregado de loja de animais não se entendem sobre o estado vital de um papagaio. “Está morto”, reclama o freguês. “Não, não, está a descansar” diz o outro. Um dos favoritos de Herman, ao lado de “The Lumberjack Song” e “Hell’s Grannies”. “São como a música do Zappa. Progressivos e intemporais. E muito artísticos.”

Nuno Artur Silva, Produções Fictícias
“Killer Joke”
(Episódio 1, Temporada 1)
Uma piada é tão engraçada que mata de riso todos os que a lêem. “É o primeiro sketch de que guardo memória”, justifica. “Para toda a gente das Produções Fictícias, os Monty Python são a primeira referência no humor.”

João Moreira, criador de "Bruno Aleixo"
“Michael Ellis”
(Episódio 2, Temporada 4).
Um homem vai ao armazém Harrods onde está sempre a ser confundido com outra pessoa. João Moreira viu a série numa reposição nos anos 90. “Lembro-me de ter adorado. Mas nenhum dos meus colegas da escola partilhava deste gosto.”




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