Livros
Booker Prize. A literatura é um jogo de azar
por Tiago Pereira , Publicado em 05 de Outubro de 2009
Amanhã é revelado o vencedor do Man Booker Prize, um dos maiores prémios literários da língua inglesa, para a crítica e para os números
No início são 132 romances, sujeitos a leitura e ao consequente escrutínio de um júri que escolhe uma longlist (13 títulos) de obras essenciais do ano. O cuidado e o rigor das escolhas tornam-se ainda mais evidentes quando é dia de anúncio da shortlist (6 livros finalistas). Ou seja, trata-se de uma competição mediática, que respeita regras, etapas e o resultado de uma final - personificada pelo anúncio do vencedor, marcado para amanhã. E enquanto uns esperam para saber que livro ficará na história e será um sucesso de vendas mesmo daqui a 20 anos, outros investem em casas de apostas, aplicando poupanças no título da sua preferência. Qualidade e quantidade, portanto, numa competição que torna verdadeiramente popular o exercício literário: o Man Booker Prize.
É o mais importante prémio das letras em terras britânicas, da Commonwealth, Irlanda e Zimbabué. E ainda que não venha acompanhado da glória de um Nobel, serve muito melhor os propósitos do entretenimento - o anúncio do vencedor é feito num jantar de gala na escola de artes londrina Guildhall, ambiente bem mais festivo que o corredor da Academia Sueca das Ciências. A associação das casas de apostas ao acontecimento é, por isso, natural, quando serviços como o da Ladbrokes há muito têm em eventos como os Óscares uma das suas fontes de receita mais seguras.
Seis autores estão na corrida e não há jornal britânico que se preze que não os ordene de acordo com as probabilidades: Hilary Mantel, J. M. Coetzee, Sarah Waters, A. S. Byatt, Simon Mawer, e Adam Foulds. Coetzee, o único não britânico ainda na corrida (o escritor é sul-africano), já ganhou o Booker por duas vezes e foi o primeiro favorito, assim que a longlist foi anunciada. No entanto, está hoje bem atrás de Hilary Mantel. Regressando à Ladbrokes, provavelmente o mais concorrido centro de apostas do momento, vemos Coetzee em segundo lugar, com probabilidades de 5/1 (por cada valor apostado, o investidor recebe cinco vezes mais caso vença). A distância de Hilary Mantel é tal que as probabilidades estão fixadas em 4/6, ou seja, fica apenas garantido um prémio que não chega a dobrar o valor inicialmente apostado - no máximo, a recompensa por acreditar na vitória de Mantel vai até aos 2/1, como no site freebettingonline.com.
Como se passa do fundo da tabela para a sua liderança em menos de nada? A tão falada coerência de gostos do júri deste ano deixa as atenções razoavelmente niveladas. E um livro como o de Mantel, que recupera a memória inglesa na sua tradição mas através de um escrita ficcional que tem sido descrita como "excepcional", pode conquistar lugar destacado com compreensível à-vontade.
É verdade que a especulação caminha com passos largos e é capaz de chegar ao mais nobre dos acontecimentos artísticos pronta a deixar consequências. Há muito que o Booker representa bons números para editoras e livreiros (além de oferecer 50 mil libras, cerca de 55 mil euros, ao escritor vencedor). Mas o reino das apostas é instável por natureza e convida à geração espontânea de acontecimentos notáveis. Começando pelas próprias apostas apresentadas. Que o digam os utilizadores do paddypower.com: "Quantos espectadores vão estar na missa do Papa" ou "Qual será o nome do filho de Colin Farrell" são algumas das propostas em jogo.
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