Televisão
Letterman preferiu rir primeiro a rir melhor
por Luís Leal Miranda, Publicado em 05 de Outubro de 2009
Como o apresentador veterano transformou um escândalo numa piada em prime time
"Ainda bem que estão todos aqui hoje e ainda bem que estão de bom humor, porque tenho uma pequena história para contar. Apetece-lhes ouvir uma história?" O público reage com um "yeah" entusiasmado e aplausos, mas, à medida que o monólogo de Letterman vai avançando, rapidamente se percebe que este não é um daqueles relatos "nem vão acreditar no que me aconteceu ontem", típicos dos talkshows em horário nobre.
David Letterman foi vítima de chantagem - reacção do público : "oh" - porque um funcionário da CBS (entretanto detido) reuniu provas de que o apresentador terá tido relações sexuais com mulheres no staff do "Late Show" - reacção do público: "ah". "Sim, tive sexo com elas e seria muito embaraçoso que isso viesse a público [pausa dramática]. Sobretudo para elas." Reacção do público: gargalhada geral.
No final da confissão, David Letterman, 62 anos, apresentador do "Late Show" há 16, o público presente no Ed Sullivan Theater rejubilava e obedecia à luz acima do palco que assinala "aplausos".
Durante dez longos minutos do prime time norte-americano, perante mais de cinco milhões de espectadores (número que o Youtube se encarregou de multiplicar), David Letterman pegou num assunto sensível e transformou-o numa piada. Aquele que poderia ser o momento mais constrangedor da sua vida como apresentador de TV passou a piada ligeira graças a um jogo de cintura digno de um campeão de hula hoop.
Nos jornais do dia seguinte, a notícia era "David Letterman revela tentativa de extorsão" e não "Apresentador do 'Late Show' admite assédio sexual e adultério". E isto, para Troy Patterson, editor da revista "Slate", é um excelente exemplo de gestão de crise. "A última frase arruma o assunto. É uma maneira brilhante de libertar a tensão", escreveu no blogue "Brow Beat".
Brincadeiras de adúlteros Poucas horas depois de Letterman deitar tudo cá para fora, o "New York Times" criou uma página para receber os comentários dos leitores sobre o assunto. As reacções são, na sua maioria, bem-humoradas e de admiração pelo gesto do apresentador: "Aquele otário escolheu o tipo errado para fazer chantagem" ou "Podemos esperar agora uma carreira política de Letterman, já que ele mostrou ter todos os requisitos para servir a sociedade civil".
Mas há quem aponte para um pormenor que parece estar a passar despercebido: "Ele faz-se passar por vítima e nem sequer pediu desculpa. Os aplausos que recebeu depois de admitir que teve sexo com aquelas mulheres foram repugnantes", assinala Roger, um leitor do Texas.
Se Letterman teve sexo com mulheres que trabalham para ele, então ele pode ser acusado - de um crime: assédio sexual. A CBS admitiu que vai investigar o caso, mas fá-lo-á timidamente.
Executivos da cadeia norte-americana admitiram ao "New York Times" que não vão incomodar uma das caras mais emblemáticas da estação a não ser que fique provada uma de duas coisas: alguma das mulheres era menor ou o sexo foi usado como forma de manter o emprego.
Quando o assunto é a traição e a situação familiar de Letterman, a opinião pública refugia -se numa espécie de puritanismo burocrático. O apresentador casou-se em Março com a sua namorada de há 23 anos, Regina Lasko. Para muitos comentadores, se as relações agora descobertas aconteceram antes desta data, então Letterman não traiu "oficialmente". E isso é suficiente para ilibar o homem que em casa não se deve safar apenas com uma piada.
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