Justiça
Máfia. Tony Soprano da vida real responde no banco dos réus
Publicado em 05 de Outubro de 2009
No julgamento de Gotti Jr., a testemunha principal é o seu melhor amigo
Na manhã seguinte a ter assassinado o traficante de droga George Grosso com três tiros na cabeça, o norte-americano John Alite encontrou-se com Gotti para fazerem uma manicure. No entanto, para terem a certeza que o serviço tinha sido bem executado, os dois regressam no Corvette de Alite ao local do crime, já repleto de polícias e médicos legistas. "Ele não me parece lá muito bem", brincava Gotti. A cena podia facilmente ser tirada de um dos 86 episódios da série "Os Sopranos" ou da trilogia "O Padrinho", mas, neste caso, trata-se mesmo da descrição feita em tribunal por Alite sobre o que se passou a 20 de Dezembro de 1988, em Nova Iorque.
Alite é a testemunha principal no julgamento de John "Júnior" Gotti, o mafioso mais conhecido dos Estados Unidos. Filho de "Teflon Don", que liderou durante anos a família Gambino, Gotti Jr. está a ser julgado em Nova Iorque, naquela que é a quarta tentativa - em cinco anos - de a justiça americana obter a sua condenação. Contudo, desta vez, o FBI veio preparado com uma arma secreta: o testemunho do seu amigo de infância e antigo braço direito.
Próximos como irmãos, Alite e Gotti cresceram juntos e eram os melhores amigos até a relação ter azedado. "Eu e o John tivemos um mau casamento", disse Alite em tribunal. O divórcio foi de tal forma penoso que levou Alite a ajudar a colocar Gotti no banco dos réus. Como testemunha, os seus relatos têm sido uma transposição quase literal do fascinante universo cinematográfico relacionado com a máfia. E, como um bom filme, tem tido de tudo: traições, violência, humor negro e revelações inesperadas.
That's all, folks "John Gotti Jr. era o meu patrão." Foi assim que Alite começou o seu testemunho, perante o olhar sinistro de Gotti, numa sala de tribunal repleta de amigos e familiares. O que aparentemente não intimidou Alite, que acusou o antigo patrão de ter colaborado com ele em três homicídios e de, à sua frente, ter-se gabado de outros quatro. Acusações às quais não faltam pormenores sórdidos para encher páginas de jornais. Alite contou como teve de mandar um corpo para uma máquina de esmagar automóveis num ferro-velho, ou como outra vítima, John Cennamo, foi enforcada numa árvore, levando mais tarde Gotti a brincar com a situação.
As descrições em tribunal da sua frieza são impressionantes. Segundo outra testemunha, depois de ter esfaqueado num bar nova-iorquino Daniel Silva, um jovem de 24 anos que acabou por morrer esvaído em sangue, Gotti provocou-o com uma imitação do personagem animado Porky Pig: "Th-th-that's all, folks!"
Cultura pop As revelações de Alite são uma violação grave do código de silêncio da máfia, o Omertà, cujo castigo habitual é a morte. Porém, não é só Alite a violar este código. Também Victoria Gotti, irmã do acusado, tem relevado pormenores da vida da família.
Victoria é uma mistura perfeita de crime e cultura pop que encanta os media. É a estrela, com os seus três filhos, do reality show "Growing Up Gotti", que já passou em Portugal, na Fox Life. Na semana passada publicou as suas memórias, no livro "Esta Minha Família", onde descreve a cerimónia em que John Jr. se tornou um made man na máfia. "Foi um dos dias mais felizes da sua vida", admite. Victoria conta ainda que a cerimónia de juramento secreto envolvia queimar a figura de um santo manchado de sangue.
Apesar de a máfia clássica de origem italiana ao estilo de Tony Soprano ter vindo a perder influência nos últimos anos, sobretudo por causa dos grupos chineses, russos e mexicanos, continua a fazer parte de um imaginário enraizado na cultura pop ocidental. Os seus hábitos são dignos do grande ecrã. Alite descreve um estilo de vida de bons carros, restaurantes caros e mulheres bonitas. "Quando ia a restaurantes ou a espectáculos, tinha sempre os melhores lugares. Éramos tratados como celebridades."
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