Editorial
O Presidente no Dia da República
por Francisco Camacho, Publicado em 05 de Outubro de 2009
Cavaco recuou no silêncio para este 5 de Outubro, mas confundiu um lugar histórico com a sede de uma Câmara em disputa
Hoje a República faz 99 anos, mas o Presidente dispensou o habitual discurso nos Paços do Concelho. Haverá quem veja juízo nesta decisão - estamos em vésperas de autárquicas e Cavaco, como se sabe, gosta de parecer equidistante das forças políticas aos olhos dos portugueses. Até mesmo quando isso o leva a cometer exageros ou, pior ainda, a baralhar-se. Ao evitar a Praça do Município, o 19.o Presidente está a confundir a sede de uma autarquia em disputa eleitoral (Lisboa) com o lugar onde a República foi proclamada. Mas uma coisa são eleições, outra a celebração da República - uma ocasião solene que os presidentes aproveitam para unir os portugueses em torno de causas nobres e se reafirmarem como garante da estabilidade (uma virtude pública que este Presidente está realmente a precisar de sublinhar).
A eventual sensatez desta decisão fica ainda mais comprometida no actual contexto político, que ultrapassa largamente as autárquicas. Há muito que os portugueses não se interessavam tanto por política. Incluindo abstencionistas. Sim, porque o fenómeno deve-se menos ao entusiasmo em torno de políticos e ideias do que à perplexidade pelas trocas de acusações entre São Bento e Belém - uma história que o encontro entre Cavaco e Sócrates não apagou.
Por isso, um discurso presidencial hoje nos Paços do Concelho seria um dos mais úteis e ouvidos da história das celebrações do 5 de Outubro. Em vez de virar costas, o Presidente deveria avançar para o púlpito, tranquilizar os portugueses e provar-lhes que o desnorte e a baixa política não assaltaram os órgãos de soberania.
Cavaco terá, entretanto, aprendido alguma coisa sobre os perigos do silêncio. Seria o mínimo, depois da forma trapalhona como geriu a voz de chefe de Estado no affair das escutas a Belém. Assim, em vez do silêncio total que fora anunciado, profere hoje algumas palavras em público. Não faz um discurso no lugar certo para a ocasião, o que retira importância ao momento, mas fala aos visitantes que hoje acorrem ao Palácio de Belém. Veremos se serão só palavras de circunstância. Já houve alturas mais favoráveis para fazer prognósticos seguros sobre as intervenções de Cavaco. Basta recordar a declaração da semana passada.
O político que desapontou os portugueses com uma comunicação ao país que só aumentou os receios sobre o estado das relações entre São Bento e Belém não é apenas o Presidente português em 2009. Cavaco é uma figura de referência da democracia portuguesa há quase trinta anos, desde os tempos de ministro das Finanças de Sá Carneiro. Além de ter sido eleito Presidente, recebeu dos portugueses dois votos de confiança claríssimos traduzidos em duas maiorias absolutas como primeiro-ministro. Este currículo acentua ainda mais o peso da responsabilidade de Cavaco e o seu compromisso de transparência perante o eleitorado. A declaração da semana passada, com a onda de suspeição que levantou, com as acusações vagas que lançou, com as interrogações perigosas que deixou no ar, com a apreensão que provocou sobre a estabilidade do país nos próximos tempos, torna-se ainda mais lamentável quando se tem em conta o percurso de quem a proferiu. Cavaco tinha hoje oportunidade e pretexto para corrigir a rota. Todas as pessoas têm o direito de errar e o dever de tentar remediar. Mesmo aquelas que nunca se enganam e raramente têm dúvidas.
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