Política
Moção de rejeição espreita Sócrates. PSD pode avançar
Publicado em 03 de Outubro de 2009
A derrota não suavizou a direcção de Manuela: o PSD não parece disposto a dar o benefício da dúvida ao programa do governo PS
A direcção de Manuela Ferreira Leite admite sujeitar o governo Sócrates ao primeiro grande teste: a moção de rejeição do programa. A ideia, soube o i, está a ser trabalhada no estado-maior ferreirista, onde tudo continua como dantes, pese a derrota eleitoral.
Como o PS não tem maioria absoluta, para que o programa do governo não seja chumbado é preciso que outro partido da oposição se chegue à frente para dar o benefício da dúvida a Sócrates. O PSD quer iniciar a sessão legislativa demarcando-se claramente do governo PS, começando a criar desde já o seu reduto oposicionista, numa legislatura a que muitos observadores políticos só dão dois anos.
Colocando-se de fora das "soluções de governabilidade", o PSD obriga forçosamente os outros partidos da oposição a "colar-se" a Sócrates ou, numa versão mais benévola, a assumir-se como "oposição responsável". O alvo é aqui o CDS, cujo eleitorado cresceu à custa do eleitorado do PSD e que, segundo pensam alguns sociais-democratas, uma associação ao governo PS poderá prejudicar em futuras eleições. Para já, enquanto Manuela Ferreira Leite se mantiver à frente do partido, qualquer solução de "governabilidade" que meta o PSD está condenada à partida.
A apresentação da moção de rejeição dará espaço para o PS insistir no discurso que já desencadeou desde que as eleições de domingo não lhe deram a maioria absoluta: o PS é "responsável", mas os partidos da oposição também têm que ser. Ou seja, uma permanente guerrilha na Assembleia, com boicote total aos projectos-lei do PS, poderá abrir espaço para uma vitimização crescente e ao discurso do "deixem-nos trabalhar!".
O que aconteceu nas eleições na Alemanha também contribuem para que o PSD não esteja disposto a apresentar-se como o cordeiro da oposição: depois de ter mansamente alimentado o governo Merkel, o SPD de Franz-Walter Steinheimer foi humilhado nas urnas. O SPD, parceiro de governo e naturalmente incapaz de se distanciar de Merkel, acabou "despedido" da coligação governamental em virtude dos resultados eleitorais, sendo substituído pelos liberais. A "lição alemã" foi há só sete dias, mas acordou todos aqueles que sempre se opuseram ao Bloco Central e à hipoteca de um partido do centro à política de outro.
O PSD tem o à-vontade de quem bateu no fundo, mas nenhum dos outros partidos estará disposto a eleições antecipadas ou a provocar uma crise política. Pode custar-lhes imenso viabilizar um governo Sócrates, mas é isso que vai acontecer, de uma maneira ou de outra. O mais bem colocado é o CDS, ainda que um acordo parlamentar formal esteja completamente fora do horizonte - pelas resistências que uma solução deste tipo provocaria nos dois partidos. Mas, à esquerda, o Bloco está preparado para se abster, caso seja apresentada uma moção de rejeição. Basta o CDS admitir caucionar o programa do governo para tanto o PCP como o Bloco de Esquerda ganharem "liberdade" para se oporem ao programa. No entanto, é impossível que o Bloco de Esquerda ou o PCP votem a favor de uma moção de rejeição de programa apresentada pelo PSD. Os motivos de rejeição dos sociais-democratas são distintos. De resto, a ideia que está na base da estratégia social-democrata é mesmo obrigar o CDS a apresentar-se como "parceiro" do PS.
Paulo Portas esteve ontem com o Presidente da República, a quem naturalmente terá dado sinais de que o CDS é um "partido responsável" e que, mesmo sem coligações ou acordos parlamentares formais, o problema da "governabilidade" que tem andado a preocupar o Presidente desde o discurso do 25 de Abril será resolvido com os acordos pontuais que interessem ao CDS. Na direcção do PSD, também é assim que se lêem os resultados eleitorais: o povo "mandatou" o PS e o CDS para fazerem maioria. O PSD, de fora desta vez deste "arco da governabilidade" pode tranquilamente começar a preparar a próxima campanha eleitoral. Claro que a ideia é que, a prazo, uma associação mais próxima do CDS a Sócrates, venha a diminuir as hipóteses eleitorais do partido que foi, no domingo, a grande revelação. Uma estratégia de tenaz à direita numa direcção em fim de festa, mas sem querer entregar já os pontos.
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