Saúde
Os estudantes e as "smart drugs". Quando só estudar não chega
por Rosa Ramos, Publicado em 02 de Outubro de 2009
Para alguns, a inteligência vem servida dentro de um frasco. Parece aliciante, mas o preço a pagar é alto. E perigoso
Inteligência, concentração e memória servidas num só comprimido. A receita parece aliciante, especialmente para universitários em busca de bom desempenho académico. Chamam-lhes "smart drugs" [drogas inteligentes] e são o último recurso para estudantes desesperados. Quando a matéria começa a acumular-se e os exames estão à porta, o nervosismo e o medo de falhar aumentam. Com os nervos em franja, vale quase tudo para encontrar estratégias para potenciar o estudo e a memória. Muitos universitários começam a recorrer a medicamentos e estimulantes para conseguirem resistir a verdadeiras maratonas à frente dos livros - que ainda têm de ser conciliadas com outras tarefas académicas: as típicas saídas nocturnas.
Em Inglaterra, o consumo de substâncias que melhoram a performance cerebral está a aumentar. É o caso da medicação indicada para doenças como a Alzheimer ou o défice de atenção. E o fenómeno, alertam os especialistas, não é exclusivo deste país: está a espalhar-se por todo o mundo. Vale tudo para responder à pressão e melhorar os resultados académicos.
Segundo um estudo recente, em algumas universidade britânicas quase um quarto dos estudantes usa as "smart drugs". A própria Academia de Ciências Médicas já admitiu, oficialmente, que o uso destes remédios sem receita médica tem vindo a aumentar.
A culpa é da internet As previsões não são animadoras. Espera-se que o uso abusivo de substâncias como a ritalina (para o défice de atenção) e o donepezil (usado para a Alzheimer) continue a aumentar. Porquê? A culpa é da internet que, segundo os especialistas, disponibiliza e publicita a sua compra e consumo.
Vince Cakic,investigador do departamento de Psicologia da Universidade de Sidney, na Austrália, escreveu um artigo publicado no Journal of Medical Ethics, onde defende que as "smart drugs" são altamente atractivas para os estudantes e quase impossíveis de proibir.
"A escola secundária e a universidade são esferas competitivas primárias das vidas de muitas pessoas, e as que têm mais importância para o futuro, tanto em termos de oportunidades de carreira como na possibilidade de obter mais rendimentos no futuro. A pressão para ser academicamente bem sucedido é muito real e, num clima em que a pressão dos exames finais fez aumentar a procura das explicações, é provável que todos os caminhos para melhorar o rendimento sejam percorridos", escreveu.
Consumo vai aumentar Apesar do consumo destas substâncias estar a aumentar, os efeitos que os estudantes conseguem não são milagrosos. "Não têm efeito nenhum na memória", sublinha o neurologista Castro Caldas. "O máximo que conseguem é ficar sem sono e terem uma sensação de concentração e de que, de facto, estão a aprender alguma coisa." A ingestão destes remédios é, por isso, um erro crasso. Com a agravante de que o seu uso "altera a biologia normal do cérebro e pode causar efeitos secundários graves".
O investigador Tiago Outeiro, do Instituto Molecular de Lisboa, assegura que as substâncias indicadas para o tratamento de doenças degenerativas - como a Alzheimer - "não têm qualquer efeito na memória, como os estudantes pensam". Só que a pressão não perdoa. "Sentem-se pressionados a estimular e a melhorar a performance académica", admite. "É uma tentação pensar-se que medicamentos que ajudam em doenças que afectam a memória podem aumentar o rendimento escolar, só que não existe qualquer relação entre uma coisa e outra." Além de não serem indicados para melhorar o desempenho, podem acarretar sérios problemas como "perturbações psicológicas" e "alterações no equilíbrio normal do cérebro". E também hiperactividade e ressacas . "Estes remédios são "altamente viciantes", alerta a neurologista Isabel Martins.
Em Inglaterra, um relatório identificou 27 agentes químicos que melhoram a performance do cérebro disponíveis no país.
"Estes medicamentos até podem nivelar o jogo para aqueles que partem em desvantagem", admite o investigador inglês Vince Cakic. "Mas é impossível comprar a inteligência". Um porta-voz da Universities UK (organização que representa as instituições de ensino superior no Reino Unido) garante que "actualmente, muitas das provas disponíveis sobre o uso de drogas como o Ritalin entre os estudantes é apenas circunstancial.
No entanto, as universidades levam muito a sério o assunto do abuso de medicamentos não receitados. Não só porque é ilegal mas também porque apresenta riscos para a saúde dos estudantes. Todas as universidades deveriam aconselhar os estudantes sob pressão para procurar ajuda nos serviços de aconselhamento da universidade ou no seu médico de família".
Tem mais informações sobre esta notícia?
Conte a sua história. Seja um iRepórter.
Artigo: Os estudantes e as "smart drugs". Quando só estudar não chega
Actividade em ionline