China

Mao, 60 anos depois: o assassino que vive no coração de milhões - vídeo

Publicado em 01 de Outubro de 2009   
Na China moderna, fundada há 60 anos, Mao Tsé-tung é amuleto de taxistas. E imagem a explorar pelo regime
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Quem está na fila para ver o corpo embalsamado de Mao Tsé-tung pode comprar flores - flores de plástico. Com elas na mão, já dentro do enorme mausoléu de mármore, em Pequim, o visitante passa pelo corpo do Grande Timoneiro numa fila longa e ordeira, onde predominam chineses do campo, e deposita as flores - a seguir passará um carrinho que as levará ao início da fila para serem revendidas. Mas nada obriga o visitante a sair de mãos vazias: na loja oficial há relógios, ioiôs, T-shirts, postais, biografias e livrinhos vermelhos com as lições do líder. Lá fora, na Praça Tiananmen, está pendurado o enorme retrato de Mao.

"A China é o único país do mundo que tem na praça principal a imagem de um líder que foi um dos grandes assassinos da história", comenta Miguel Monjardino, especialista em relações internacionais. "Mao foi um dos fundadores da China moderna, mas também alguém que fez milhões de vítimas chinesas."

Há exactamente 60 anos, Mao tsé-tung subiu ao topo da Porta da Paz Celestial, em Pequim, e anunciou o nascimento da República Popular da China. Ao longo dos 27 anos seguintes, o líder dos comunistas chineses não deu paz ao país. Foi o responsável político directo por purgas violentas, políticas económicas desastrosas (20 milhões de mortos estimados só com o Grande Salto em Frente) e pela tentativa de esvaziamento cultural e espiritual de uma das civilizações mais antigas do planeta. No entanto, mais de três décadas depois da sua morte, Mao continua a ser um símbolo poderoso na China: é amuleto nos espelhos dos táxis de Pequim, tema central de um parque de diversões e tem a cara estampada no dinheiro que alimenta a quarta maior economia do mundo.

"Para muitos de nós ele representa o idealismo da revolução que pôs a China de pé contra a ocupação estrangeira", explica ao i um empresário chinês, em Pequim, que prefere o anonimato. "Não era corrupto, não levou um tostão com a revolução, o que para as pessoas contrasta grandemente com o que se passa agora", acrescenta.

Para muitos chineses - em especial nas zonas rurais, menos no Sul industrial -, Mao simboliza um passado menos materialista, e sobretudo corrupto. Já os mais novos conhecem pouco sobre as atrocidades (e corrupção) do maoísmo, apagadas dos currículos escolares pelas gerações seguintes de líderes. "O partido [comunista chinês] não poderia destruir a imagem e a obra de Mao porque senão criaria um problema de legitimidade muito grande", explica Moisés da Silva Fernandes, investigador da Universidade de Lisboa. Com a morte do sucessor de Mao, Deng Xiaoping, desapareceu a geração de líderes feitos na revolução - ter Mao vivo mantém as credenciais dos actuais líderes.

Para o partido - que critica os "excessos" da Revolução Cultural, embora chamando-lhes "os erros de um grande revolucionário" -, Mao é também o passaporte para desfazer tudo aquilo por que o Grande Timoneiro se bateu. "A imagem de Mao está em Tiannamen porque o partido precisa de mostrar às pessoas que não anda a mudar a sociedade tão rapidamente como na realidade anda", aponta Miguel Monjardino.

A grande mudança da China é vista quase sempre de fora, sob o prisma das ameaças e das oportunidades que trouxe ao Ocidente. Contudo, o preço político da reforma no país é alto: o fim dos grandes conglomerados fabris do maoísmo gera milhões de desempregados, a corrupção é generalizada, o número de motins cresce todos os anos. A luta de classes deixou de ser um slogan como no tempo do maoísmo. Ainda assim, 60 anos depois da fundação da China moderna, as tensões são enormes.


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