Editorial

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por Martim Avillez Figueiredo, Publicado em 30 de Setembro de 2009   
As palavras do Presidente não foram claras, mas não pouparam na violência contra membros destacados do governo. O que aí vem não pode ser bom
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Cavaco Silva falou e quem ouviu pode muito bem ter tido dificuldade em perceber o que disse. Repare-se nas palavras com que encerrou a rápida comunicação ao país: "Estejam certos que estarei aqui a defender os superiores interesses de Portugal." Pouco antes tinha sublinhado: "Há vulnerabilidades em Belém, que mandei investigar." Tradução?

Para razoáveis entendedores, o Presidente está a dizer que não confia no que se passa em Portugal e que está convencido que o Palácio de Belém não é um local seguro. "Vulnerabilidade" não é uma palavra qualquer - é violenta, militar.

O que nem os bons entendedores conseguem perceber é de quem fala o Presidente.

A verdade é que Cavaco Silva ocupou uma fatia do seu discurso dizendo que nunca se referiu a quaisquer escutas e uma segunda fatia do seu tempo lançando um violento aviso aos seus assessores (só o Presidente fala pelo Presidente). Depois tira uma terrível conclusão, que lança uma nuvem de suspeitas - seja ao acusar (quem?) de fazer uma campanha eleitoral desviada do essencial, seja de manipular a opinião pública durante a mesma campanha. E por fim acusa incertos de tentarem colá-lo ao PSD. Por fim, exige esclarecimentos. A quem? Uma conclusão para bom entendedor: Cavaco não pode ver Sócrates nem pintado.

Sucede que aquela arrogância que se critica em Sócrates não deveria ser combatida com insinuações e silêncios. Um primeiro-ministro não deve ao país arrogância, tal como um Presidente não deve ao país declarações que o encham de dúvidas. O país endoidou, como sugeria Alberto João Jardim?

Talvez exista uma explicação mais simples: o Presidente da República terá de indigitar o primeiro-ministro. Pode, na ausência de uma maioria clara (e como lhe permite a Constituição), sugerir soluções parlamentares que, na sua opinião, melhor traduzam o sentido de voto dos portugueses. E Cavaco sabe que Sócrates sabe que assim é. O país ficará por isso suspenso das suas palavras - ou da sua indigitação. E tal como fica o país fica José Sócrates, que agora sabe que terá sempre o Presidente à perna.

É justo? É disso que o país precisa? Claro que não. Já aqui se escreveu que um Presidente - ou um primeiro- -ministro - não pode falar por enigmas ou sugestões. Não pode insinuar. Sim, não poder é expressão forte. Ele pode. Mas não deve. E o que o país continua sem saber agora é se há escutas, se Cavaco vai nomear Sócrates, se Cavaco vai colaborar com aquele em quem os portugueses mais votaram domingo passado. Como num bom jogo de póquer, Cavaco ficou de novo com a voz do jogo. Falta virar algumas cartas. Mas nas que faltam Cavaco (mesmo recorrendo ao bluff) está na liderança do jogo.

E a próxima jogada é que as destacadas figuras do governo, como lhes chamou o Presidente, digam o que pensam. Uma última ideia? O país precisa de ter caminho. Porque está à beira do abismo.


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