Política
Esquerda aumenta pressão sobre Sócrates
Publicado em 30 de Setembro de 2009
PCP e BE explicaram ontem ao PS como vai ser duro negociar à esquerda
Cumprindo rigorosamente o que tinha dito na campanha, Jerónimo de Sousa não recusou imediatamente o convite de José Sócrates para conversar. Mas ontem, depois da reunião do Comité Central para a análise dos resultados, o secretário-geral do PCP insistiu que o seu partido recusará sempre "entendimentos cegos".
Para Jerónimo, o governo socialista é agora "um comboio em construção" que ainda não tem definido "rumo" ou "linha" e está "sujeito a cair num precipício". E o PCP espera para saber "que rumo e destino" terá "o comboio socialista". Mas, em resposta ao discurso do PS sobre as "responsabilidades" das oposições, Jerónimo avisa: "Não venham chantagear o PCP ou tentar atirar responsabilidades daquilo por que o PS é responsável."
"O povo português tem o direito de saber que política vai ser realizada. Não é por acaso que o PS perdeu a maioria absoluta. Em política não pode haver entendimentos cegos", diz Jerónimo, provando que entre a campanha e o dia de ontem as posições do PCP não mudaram: "O PS é que tem de definir claramente. Se se afirma da esquerda, então que pratique e que proponha uma política de esquerda, e não dizer que vai manter o rumo da mesma política, uma política de direita", disse o secretário- -geral do PCP. Essa é a base para qualquer discussão com vista a um hipotético entendimento: "É a partir daqui que discutimos, e não fechar os olhos e, só em nome do poder pelo poder, entrar para o comboio e depois cair no precipício", afirmou.
Os "eixos centrais" de uma negociação com o PCP teriam que passar por "uma outra definição do rendimento nacional, a defesa dos serviços públicos, a valorização do trabalho e dos trabalhadores e a questão do papel do Estado, com alavancas fundamentais no plano económico".
Jerónimo anuncia que, quando abrir o Parlamento, o PCP apresentará as propostas de alargamento do acesso ao subsídio de desemprego, a revogação do Código do Trabalho e da legislação laboral da administração pública, o aumento do salário mínimo nacional, a valorização das pensões de reforma, a salvaguarda do direito à reforma aos 65 anos e a possibilidade da sua antecipação sem penalizações para carreiras contributivas de 40 anos - e ainda a revogação do Estatuto da Carreira Docente.
"Mais uma vez se reafirma que, quaisquer manobras e especulações para fixar cenários sobre governos ou maiorias, não pode iludir que a questão decisiva para o futuro do país reside no conteúdo das políticas e da assumida disposição de uma mudança a sério."
PS vai aliar-se à direita Francisco Louçã, num texto publicado no Esquerda.net, o site do BE, diz que "a dança das coligações é uma farsa sem sentido" e afirma não ter dúvidas de que o PS irá fazer os acordos parlamentares à direita. "Já foi com a direita que o governo fez os acordos para o Código do Trabalho e para a reforma que atacou a Segurança Social, e assim quer continuar a fazer." Mais: "Para Sócrates, a força do PS está na direita dos interesses económicos que condicionam a direita política e lhe dão hegemonia ao centro."
Para Louçã, "essa é mais uma razão para o primeiro-ministro tentar continuar a sua governação à direita, porque esvazia o PSD, atraindo os apoios dos principais sectores empresariais". "O cavaquismo está moribundo, resta Sócrates", escreve.
Ontem, em conferência de imprensa, Francisco Louçã admitiu que o primeiro confronto entre o Bloco e o PS será sobre o Orçamento de Estado. Começou a enunciar as suas condições: "Ou há uma política que traga transparência fiscal, o fim dos offshores, o aumento das receitas no combate à evasão fiscal e de uma maior justiça redistributiva ou o país continuará a ser prejudicado por uma política orçamental que arruína os salários, prejudica as poupanças, ataca as pensões e mantém o nível elevadíssimo de pobreza."
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