Uma mesa torta, uma estante inclinada, uma cadeira disforme, uma gaveta que não cabe na cómoda a que pertence, uma cadeira virada ao contrário, à qual tiraram uma lasca de madeira mas que se sustenta em perfeito equilíbrio. E o que à primeira vista são defeitos transformam-se em características - elementos capazes de tor- nar uma pessoa ou objecto algo único.
Não são criações com erro: são obras originais elaboradas por 19 designers portugueses e estrangeiros em nome da acção social e da solidariedade. Fazem parte do projecto Efeito D - que não é mais que a palavra "defeito" com o D trocado -, uma nova marca de peças de design inspirada em pessoas diferentes, com síndrome de Down. As receitas revertem a favor do Centro Diferenças, que presta apoio a crianças e jovens com perturbações do desenvolvimento.
A exposição
Esta é a primeira vez que o design se associou à acção social e todos os artistas aceitaram o desafio.
São portugueses e estrangeiros que criaram 27 objectos e projectos com erros.
Entre mesas inclinadas, como as elaboradas pelo designer Miguel Vieira Baptista, candeeiros de textura irregular e única, de Rui Sampaio de Faria, clips em forma de cromossoma X e Y de Alexandre Viana e lenços dos namorados em versão moderna, estão dois objectivos: angariar receitas e valorizar as diferenças - mais do que aceitá-las - de quem é porta- dor de trissomia 21 ou de qualquer outro atraso do desenvolvimento.
A exposição, enquadrada no âmbito da Experimenta Design 09, está patente na Fundação Calouste Gulbenkian até dia 9 de Outubro e nem é preciso pagar para a ver.
Demorou dois anos a concretizar e teve a participação de designers como Miguel Vieira Baptista, Fernando Brízio, Alves Gonçalves, Naulília Luís, Pedro Silva Dias, Richard Hutten, entre muitos outros.
O fim da exposição não implica, no entanto, o fim da marca EfeitoD: "A ideia é convidar outros designers para que criem mais peças para serem comercializadas", conta Miguel Palha, director clínico do Centro Diferenças.
Para já, há quatro lojas em Lisboa e três no Porto que aceitaram receber as obras EfeitoD, cujas receitas revertem 100% para o Centro Diferenças.
Efeito D
Miguel Palha aceitou o desafio de Pedro Bidarra, director da BBDO - empresa de publicidade que oferece os seus serviços ao Diferenças -, "de introduzir um erro em determinadas peças que se tornasse uma vantagem para o objecto". O passo seguinte (já em curso) é produzir as peças e comercializá-las através de galerias e lojas de museu para que "o centro possa tornar-se auto-sustentável". "Como ONG vivemos de donativos e financiamentos pontuais, pelo que nos é muito difícil prestar o devido apoio a crianças de níveis socioeconómicos mais baixos porque não temos capacidade financeira. Com a criação da marca EfeitoD esperamos conseguir algumas reservas para o dia-a-dia."
Centro Diferenças
Criado em 2004, faz parte da Associação Portuguesa de Portadores de Trissomia 21 e tem como objectivo, segundo o director clínico, "apoiar todas as crianças com perturbações do desenvolvimento, sejam cognitivas, de linguagem ou de interactividade". Neste momento, o Diferenças acompanha mais de nove mil crianças em todo o país e proporciona apoio a cerca de 1200 pessoas com trissomia 21.
Além do apoio, o Diferenças está a desenvolver um software para combater a dislexia, juntamente com a Microsoft e a Gulbenkian. "Mas todas as ajudas são necessárias, nesta altura", explica Miguel Palha.




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