Roman Polansky

Os fantasmas de Roman Polanski usam saias

por Luís Leal Miranda, Publicado em 29 de Setembro de 2009   
Escapou ao holocausto e superou a morte trágica da mulher. Mas um crime com 32 anos não deixa de o assombrar
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A vítima retirou a queixa, a opinião pública perdoou e a crítica voltou a dar-lhe crédito. Em 32 anos, só a justiça não mudou de vontade: julgar e condenar Roman Polanski pela violação de Samantha Geimer. O realizador aterrou domingo em Zurique, na Suíça, para receber um prémio de reconhecimento pela sua carreira. Mas, minutos depois de sair do avião, o reconhecimento era outro: pelo crime que cometeu em Março de 1977.

Esperavam-no a polícia suíça pronta a executar o mandado de procura internacional lançado pelos EUA em 2005. Até este fim-de-semana o realizador, que fugiu para Paris em 1978, viajava apenas por países na Europa sem acordos de extradição para os EUA. As autoridades norte-americanas chegaram a um acordo com as forças de segurança suiças ao saberem da deslocação de Polanski com antecedência. A extradição e julgamento do realizador de "O Pianista" estão agora a ser negociados.

Foi em Março de 1977 que o realizador, então com 44 anos, teve relações sexuais com a modelo de 13, Samantha Geimer. Polanski alega que o sexo foi consentido, mas a acusação apresenta uma lista de crimes que inclui violação, sodomia e coacção ao uso de drogas.

A organização do Festival de Cinema de Zurique já condenou o sucedido, garantindo que não era sua intenção atrair o cineasta para uma armadilha. Realizadores polacos vieram pedir a libertação do homem que escapou ao gueto de Cracóvia com oito anos e viu os pais serem levados para um campo de concentração na alemanha nazi. As autoridades francesas condenaram a prisão - Polanski é cidadão francês desde 1978 - com o ministro da cultura, Frederic Miterrand, a mostrar-se "perplexo" com o sucedido: "Não faz sentido nenhum." O presidente Nikolas Sarkozy está a seguir o caso com atenção e espera-se uma acção diplomática conjunta entre ministros dos negócios estrangeiros polacos e franceses, no sentido de garantir a libertação do cineasta.

Na Suíça, intelectuais e políticos não vêem com bons olhos a prisão de Polanski em solo helvético: o gesto pode comprometer aquela que é a sua maior exportação a seguir aos chocolates e relógios - a neutralidade. "Uma grotesca farsa judicial e um monstruoso escândalo cultural", comentou a Associação Suíça de Realizadores.

O escritor britânico Robert Harris, que trabalhou com Polanski por várias vezes, vai mais longe: "Esta é uma acção concertada pelas elites, feita para mandar uma uma espécie de mensagem para alguém, num sítio qualquer." Um repórter da Associated Press, que inadvertidamente publicou uma troca de e-mails entre colegas da agência de notícias, concretiza as suspeitas de Harris: "A Suíça deve estar a ser pressionada pelos EUA por alguma razão."

O caso ganha contornos de thriller policial, género que Polanksi revisitará no já terminado "The Ghost" (ver caixa), mas a prisão do cineasta remete mais depressa para filmes mais antigos como "Chinatown", a história de um detective confrontado com a impossibilidade em fazer justiça. E convém lembrar que Polanski foi o responsável pela adaptação ao cinema de "Mcbeth", drama de Shakespeare sobre um rei atormentado por fantasmas do passado. O curioso é todos esses fantasmas serem do sexo feminino.

Barbara Lass (1959-1961)
Nascido em Paris, filho de polacos, Roman foi viver para Cracóvia pouco antes de começar a Segunda Guerra Mundial. Terminado o conflito, estudou cinema em Lodz onde conheceu a sua primeira mulher. Barbara Lass, popular actriz polaca, casou-se com Polanski em 1959 e divorciou-se três anos depois. Trocou o jovem realizador por um actor mais velho, Karlheinz Böhm.

Sharon Tate (1968-1969)
Sobre a morte de Sharon Tate, Polanski disse que "não ter estado em casa naquele dia é a coisa de que mais me arrependo na vida". O realizador estava em Londres quando os elementos da seita de Charles Manson lhe entraram em casa e mataram todos os presentes. Entre eles estava a mulher, Sharon Tate, grávida de oito meses.

Emmanuelle Seigner (1989-Presente)
Modelo. cantora e actriz francesa, Emamanuelle Seigner tornou-se particularmente famosa depois de casar com Roman Polanski. Mais uma vez, o realizador conheceu a mulher com quem está junto à mais tempo num cenário de cinema: o thriller "Frantic". Juntos, Polanksi e Seigner têm dois filhos, Morgane e Elvis - nome do cantor preferido, Elvis Presley.

Samantha Geimer
Perdoou Polanski publicamente em 1997, ano em que retirou a queixa contra o realizador. No entanto, os tribunais norte-americanos continuam empenhados em saber se Polanski violou mesmo a jovem Samantha em Março de 1977. Na altura, a modelo de 13 anos trabalhava com Polanski numa sessão fotográfica para "Vogue". O realizador tê-la-à drogado antes do sexo que diz ter acontecido por consentimento. Em 2003, Samantha assinou uma coluna de opinião no "Los Angeles Times" onde diz que o pior não foi o que Polanski lhe fez, mas sim "o que aconteceu a seguir com a perseguição dos media".


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