José Sócrates teve a vitória que poucos países europeus dariam a um primeiro-ministro acossado por um escândalo como o Freeport. O homem que, em Fevereiro, no congresso do PS, praticamente disse que seria o povo "e não qualquer jornal ou televisão" a fazer o seu julgamento popular, recebeu a primeira parte da sentença: absolvido politicamente, mas sem maioria absoluta. A vitória, se não é "estrondosa", como tinha pedido Pedro Silva Pereira, é um feito numa situação de adversidade generalizada: o ódio visceral de uma classe como os professores, a raiva de amplas franjas da Função Pública e da "rua", o desemprego, a crise internacional. Se a vitória é obviamente favorecida pela desorientação estratégica do PSD de Manuela Ferreira Leite, o que é impossível disfarçar é que o "verdadeiro" Sócrates acabou ontem: com 36,5 por cento, a uma distância enorme da maioria absoluta, é-lhe exigida uma transmutação de personalidade de que ninguém o julga verdadeiramente capaz. Se com António Guterres o diálogo conduziu ao pântano, com Sócrates, o auto-suficiente compulsivo, vai conduzir a quê? O secretário-geral do PS não foi feito para isto, para negociar alínea a alínea no Parlamento o mais insignificante dos diplomas: na declaração de "vitória", Francisco Louçã já explicou que de agora em diante seria bloqueada uma reforma como a da Segurança Social. O Bloco de Esquerda, com mais de 550 mil votos, é agora o "partido responsável" que não pode deitar o governo abaixo por dá cá aquela palha, mas sabe perfeitamente que morre a prazo se trair o eleitorado da "grande esquerda" que o colocou à frente do PCP. Para nenhum dos lados a coisa vai ser fácil.
Ao ficar ao nível do caótico PSD de Santana Lopes em 2005, que tinha sido humilhado por Jorge Sampaio, Manuela Ferreira Leite desbaratou a "esperança" das eleições europeias, perdeu uma oportunidade histórica e pôs qualquer pessoa a pensar no que não teriam conseguido Marques Mendes ou Luís Filipe Menezes perante o fragilizado Sócrates dos últimos anos. O desastre do PSD é muito significativo por ser uma derrota de um certo PSD cavaquista e "elitista" que, num primoroso efeito de espelho com José Sócrates, sempre se julgou auto- -suficiente e infalível na sua quinta imaginária.
Em parte consequência do desastre do PSD, em parte pelo seu vigor inexcedível, Paulo Portas regressou do além de quinto partido do sistema em que 2005 colocou o CDS e, ao contrário de todas as previsões, acaba em terceiro lugar.
Obtendo mais 15 mil votos do que em 2005, o PCP sobe indiscutivelmente. Mas, na futura Assembleia, vai assistir a uma dolorosa passagem de testemunho: o maior partido à esquerda do PS é, agora, o arqui-inimigo BE.
Redactora principal




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