Os portugueses que votaram querem José Sócrates como primeiro-ministro. Dito de outra forma, preferem ser comandados pela mesma convicção que o atraiçoou (por exemplo na guerra com os professores) e chumbaram as hesitações e discursos solitários de Ferreira Leite. Sim, não há maioria absoluta - porque os mesmos portugueses desejam que essa convicção que personifica Sócrates seja moderada pela obrigação de se conciliar com outros partidos. Esta é a grande conclusão destes resultados eleitorais. E o que os resultados dizem é que os portugueses querem o PS a procurar consensos com Bloco de Esquerda e PP (os partidos que ganharam votos). Pois: o PSD fica de fora - Ferreira Leite não foi melhor do que Fernando Nogueira e ficou ao nível de Santana Lopes... Chumbada!
O QUE QUEREM OS PORTUGUESES
É aqui, nesta subida do BE e do PP, que residem os grandes desafios desta governação. E o desafio que os portugueses pedem a Sócrates é que não perca a sua vocação liberal. Não é elogio - é sublinhar aquilo que, lá no início e antes de todas as polémicas, o conduziu ao poder (primeiro dentro do PS, depois no país). E a vocação liberal, como se pode entender fazendo Zoom nas páginas 30 e 31 desta edição, consiste em afirmar acima de todos os interesses essa ideia de que existe um caminho entre (1) as virtudes do mercado livre e da defesa de um governo limitado e entre (2) a fé na intervenção do Estado. É isso que pedem os votos - governar entre os excessos de Louçã e a estratégia de Portas. Dito de outra forma, que existe um caminho entre o discurso datado do Bloco (só Estado) e o discurso eleitoral do PP (só mercado). Que é possível conciliar mercado e Estado.
Num editorial aqui publicado a 22 de Agosto, escrevia-se o que significava esta esquerda moderna: "Um salto lógico para uma esquerda que deseja potenciar a liberdade de escolha. Já não se fala da igualdade clássica, mas de uma esquerda que aceita diferentes formas de vida, distintos potenciais e a autonomia de cada um - indicando o Estado como fornecedor ideal dessa liberdade sempre que o mercado não actua." Falhar nesta missão é falhar a governação. E falhar os desejos do país.
QUE ESQUERDA É ESTA?
Na verdade, o que este editorial de Agosto significa é um conceito muito pensado na teoria política internacional, e que esteve na base da vitória de Tony Blair no Reino Unido, de Bill Clinton nos Estados Unidos da América e, agora de novo, na vitória de Obama - o pressuposto de que uma sociedade governada apenas com Estado ou dependente apenas do mercado não é tão eficaz quanto aquela que trabalhar na melhor fusão entre os dois. E merece a pena escrever aqui umas rápidas linhas de teoria: a tese que fala apenas de mercado (tentação do PP) esquece que a liberdade de fazer não é igual à capacidade de fazer. Quando Portas acusa portugueses de abusar do rendimento garantido esquece que essa é uma alternativa viável para quem não tem outras alternativas. Ou seja, o mercado funciona melhor para quem tem capacidade de fazer mas nada faz por aqueles que não detêm meios para concretizar as suas aspirações. O britânico Lord Joseph, que governou ao lado de Margaret Thatcher nos anos 80, nem por isso deixou de perceber bem este problema: "A pobreza não é ausência de liberdade." Foi porém Blair quem melhor construiu políticas para responder a esse terrível desafio. Sócrates terá também este dilema.
E este dilema funciona como um exigente jogo em que a principal função do Estado consiste em garantir uma distinção entre as duas esferas - entre Estado e mercado. Isto é, a grande tarefa de um governante consistirá em conhecer as esferas da vida de cada pessoa e perceber em quais dessas esferas o Estado actua melhor do que o mercado e vice-versa.
Ora, nestas eleições, o que os portugueses pediram é uma governação que compatibilize o papel do Estado com a mensagem do mercado. E escolheram Sócrates como o homem que deve manejar essas duas forças. E aí devem avaliá-lo.
E A ECONOMIA?
Na sociedade portuguesa, em que 20% são muito pobres (menos de 4000 euros por ano), a classe média é, também ela, pobre. No extremo menos pobre dessa classe estão cerca de 500 mil portugueses que vivem com 60 mil euros por ano. O que isto significa é que a economia nacional não é a dos grandes números, como muitas vezes se diz, mas aquela que mais rapidamente actua sobre o bolso das pessoas. Fazendo Zoom nas páginas 30 e 31 descobrem-se os contornos deste desafio, que se resume assim: a economia nacional não se altera no próximo ano. Que é como quem diz não cresce em 2010. Estando endividada, como se sabe, o desafio de quem governa consiste em actuar rapidamente na qualidade de vida das pessoas sem lançar o país numa situação de insolvência. Sem exigir que o dinheiro que vier a produzir se esgote em absoluto nas dívidas que vier a contrair. E aqui reside o desafio.
Paul Krugman, Nobel da Economia em 2008, não hesita em afirmar que se as economias não se endividarem agora podem perfeitamente não chegar vivas à geração que terá de as financiar. Isto é, se não se endividarem os netos eles podem não ter nada a que se agarrar. Mas Krugman fala do alto da economia americana, capaz de crescimentos (em momento bons) próximos dos 5%. Portugal cresce pouco e financia os seus gastos com dinheiro dos impostos e empréstimos ao exterior. Ou seja, para crescer precisa de mais dinheiro (que vem de fora) e que só pode ser pago através de impostos. Por isso o novo governo tem, mais uma vez, de deixar clara a sua posição - nem impostos a mais (como com o Bloco), nem impostos a menos (como com o PP) - e que contas sustentam essa posição. O problema não são as obras públicas - é o contrato que se fará com o país para as pagar mais tarde.
OS PRÓXIMOS DIAS
Sócrates conhece todos estes desafios e terá de dizer se os quer vencer. Nos próximos dias muito se falará de consensos parlamentares - e ficaram claros os riscos que existem com Bloco e com PP. O que significa que melhor seria procurar um entendimento com o país. Abandonar o discurso eleitoral e concentrar a mensagem nesse incrível desafio: explicar ao país onde terá a intervenção do Estado e onde poderá contar com a vitalidade do mercado. Para Portugal crescer.




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