Há um pequeno país que vive num regime de asfixia democrática. O seu legítimo presidente está cercado e não se sabe quando regressará ao exercício das suas funções. Falo, obviamente, das Honduras. Faz hoje três meses que Manuel Zelaya foi deposto por um golpe de Estado condenado por toda a comunidade internacional, que se recusa a reconhecer o novo poder.
Quando escrevo estas linhas, Zelaya, depois de ter reentrado no seu país, está refugiado na embaixada brasileira. O Brasil, que, como quase todos os países da América Latina, já soube o que é o recolher obrigatório, a suspensão das liberdades democráticas, os assassinatos políticos e os desaparecidos, fez saber, uma vez mais, que a única solução aceitável é o regresso de Zelaya à presidência.
Os golpistas têm obviamente pretextos, maus pretextos, repetidos pelos ventríloquos neoconservadores por todo o mundo, para abalroar a ordem democrática: a vontade do presidente eleito de realizar um referendo não vinculativo para a convocação de uma assembleia constituinte que reveja uma constituição feita à medida dos interesses de uma pequena elite, num país onde dois terços da população vive abaixo do limiar da pobreza.
A história da América Latina é a história de golpes de Estado contra governos democráticos e reformistas - da Guatemala de Arbenz na década de cinquenta ao Chile de Allende na década de setenta, passando pelas recentes tentativas de depor Chávez e Morales na Venezuela e na Bolívia, estas últimas felizmente fracassadas. Entretanto, o Fundo Monetário Internacional, fazendo jus à sua brutal história, e reflectindo a ambiguidade dos EUA, aumentou a "ajuda" ao governo ilegal hondurenho.
Quais foram então os pecados socioeconómicos de Zelaya, um fazendeiro eleito por um partido de centro-direita, improvável campeão das classes populares? Maurice Lemoine, do "Le Monde Diplomatique" (publicação mensal que tem uma excelente edição portuguesa), identifica três pecados: aumento substancial do salário mínimo, parte de uma série de reformas redistributivas, cooperação com a aliança de países onde pontifica a Venezuela e vontade de atenuar a histórica dependência político-militar em relação aos EUA.
Não é por acaso que o termo "república das bananas" foi cunhado com países como as Honduras em mente. A história repete-se tragicamente. Quem se mete com a Chiquita leva. Até quando?
Economista e co-autor do blogue Ladrões de Bicicletas




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