O peso do politicamente correcto é tão avassalador que, frequentemente, no debate sobre o tabaco, se dá como certo que os poderes públicos não só têm o direito como também o dever de interferir na vida das pessoas - para o seu bem, claro - e que ninguém pode ir mais além nas discussões técnicas. Acontece o mesmo com a polémica actual sobre os impostos: poucos contestam que o governo deve aumentá-los, pelo que o único debate é sobre qual, como, quanto e quando. Ninguém levanta a questão do porquê.
Acontece o mesmo no caso do tabaco. Os meios de comunicação social vão-se pouco a pouco ocupando de raciocínios sobre as doenças real ou supostamente provocadas pelo tabagismo e a despesa que este representa para a saúde pública. Os defensores da liberdade vêem-se encurralados e obrigados a congeminar hipóteses económicas, algumas das quais razoáveis: - que os fumadores pagam mais impostos do que os não-fumadores, e que, além disso, vivem menos tempo, sendo portanto benfeitores virtuais dos cofres públicos ao trazer-lhes relativamente mais e drenando-os de menos recursos, pois costumam falecer bastante tempo antes dos veneráveis anciãos de pulmões limpos.
Também se argumenta que os impostos altos fomentam as máfias criminosas, da mesma maneira que, como admitem os economistas desde há séculos, o proteccionismo tarifário incentiva o contrabando, ou a proibição das drogas, que equivale a um imposto indefinidamente oneroso, anima os bandos criminosos dedicados ao narcotráfico.
Muitos destes raciocínios têm grande valor técnico. Está igualmente justificada a queixa dos bares e restaurantes que investiram somas chorudas a acondicionarem os seus espaços, só para concluírem que o governo não se importa nada e está disposto a arruiná-los, proibindo por completo o fumo, com desculpas tão duvidosas como o dano pretensamente mortal que se causa aos fumadores passivos, ou simplesmente incríveis, como haver muitos países onde existe esta proibição, como se a unanimidade dos governos significasse algo mais para além da sua própria conveniência. Também é de lamentar a credulidade dos que continuam a acreditar que o poder ajuda, em vez de submeter, e concluem que, se for um benefício para a nossa saúde, tudo o que façam as autoridades será bem feito. Como se os regimes mais sinistros - o nazi, por exemplo - não tivessem sido grandes campeões da luta contra o tabaco ou da defesa dos direitos dos animais, outra questão politicamente correcta.
É claro que as campanhas deste tipo convêm ao governo para ocultar as suas responsabilidades quanto à crise económica. Mas o mais grave é que, em todos os casos, se trata de incursões punitivas contra a liberdade e em prol da legitimação da coerção política. Tal violação deveria convocar a resistência das mulheres e homens livres, fumadores ou não. Se permitirmos que o poder reduza, sem limites, a nossa liberdade para nosso bem, ele fá-lo-á, efectivamente, sem limites. E, além disso, quererá extorquir os nossos aplausos. Perante os socialistas de todos os partidos, os que sempre procuram e encontram desculpas para, em nome de objectivos irrepreensíveis, nos retirarem a liberdade e o dinheiro com a força e o peso da lei, poderíamos rever "On Liberty", o clássico de John Stuart Mill, onde se lê: "Cada pessoa é a melhor guardiã da sua própria saúde, seja ela física, mental ou espiritual. A humanidade sai mais beneficiada se consentir que cada qual viva como lhe parecer melhor, do que se for obrigada a viver ao gosto dos outros". Falando de saúde, seria saudável que todos recordássemos que democracia não é sinónimo de liberdade e que um governo democrático pode apresentar facetas profundamente antiliberais. Por isso, até ao final de "A democracia na América", Tocqueville fala de "um poder imenso e tutelar, absoluto, minucioso, regular, previsor e benigno", um poder que poderia ser paternalista se quisesse preparar os seres humanos para a idade adulta mas que, na realidade, pretende deixá-los na infância, um poder que "não tiraniza, mas incomoda, reprime, debilita, extingue, embrutece e reduz cada nação a não ser mais do que um rebanho de animais tímidos e industriosos cujo pastor é o governo. Sempre acreditei que essa espécie de servidão ordenada, doce e pacífica que acabo de descrever poderia combinar-se melhor do que se imagina com algumas das formas exteriores da liberdade e que não lhe seria impossível estabelecer-se à sombra da soberania do povo".
Economista




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