Legislativas
O desconforto abrupto do PSD com o Presidente da República
Publicado em 23 de Setembro de 2009
Aguiar-Branco acusa PS de "instrumentalizar" a demissão de Fernando Lima para ganhar votos. Ferreira Leite garante que o assunto "não interfere" na sua campanha
O dia social-democrata começou de olhos postos na blogosfera. "O Presidente rompeu o seu próprio silêncio e 'falou' através da demissão do seu assessor de imprensa e, sendo assim, interferiu de facto na campanha eleitoral", escreveu Pacheco Pereira no Abrupto. A primeira crítica pública de uma personalidade do PSD ao timing da demissão de Fernando Lima, anunciada na véspera por Cavaco Silva, rompia com o registo de silêncio social--democrata sobre um tema delicado. Mas até ao final do dia continuava sem eco.
O desconforto social-democrata com as possíveis consequências eleitorais do caso das escutas ficou bem patente no facto de Ferreira Leite não ter desmontado a sua estratégia. "Não tenho elementos suficientes para poder pronunciar-me sobre esse caso. É um problema do Presidente da República e eu não interfiro", disse a presidente do PSD aos jornalistas. No entanto, manteve a convicção de que o assunto "não interfere" na campanha laranja.
Só ao fim do dia, em Braga, a líder laranja voltou ao assunto, na sessão pública que encerrou o dia de campanha. Mas de forma subtil, numa resposta irónica a Louçã. "Hoje vi na comunicação social que a campanha do PSD tinha acabado. Se isto é acabar, então não sei o que é fazer uma campanha", apontou, invocando as "centenas e centenas de pessoas" com que convivera horas antes nas ruas de Guimarães.
A resposta oficial do partido surgiu precisamente durante essa acção de campanha, pela voz do vice-presidente social-democrata, Aguiar Branco. "A nossa campanha não está condicionada nem é afectada por quaisquer decisões do Presidente da República", defendeu, antes de criticar a tese de que a demissão de Fernando Lima desmonta a ideia de asfixia democrática socialista: acusou o PS de "instrumentalizar este facto" com o objectivo de ganhar votos. "Nós não o vamos fazer. O eleitorado está devidamente esclarecido sobre quem manipula o quê".
E Augusto Santos Silva transformou-se no alvo do contra-ataque laranja. "Augusto Santos Silva pretende aproveitar esta situação em vésperas de eleições para tentar apagar tudo o que fez nos últimos quatro anos, mas os portugueses não têm memória curta e ninguém vai esquecer o que este ministro da propaganda fez", apontou, recusando comentar a opinião de Pacheco Pereira sobre a decisão de Cavaco. "Emitiu a sua opinião mas o PSD não vai alterar uma linha daquilo que definiu".
De resto, tanto Aguiar Branco como Ferreira Leite garantiram ontem que esta polémica em nada esvazia o discurso social-democrata sobre a asfixia democrática do país. E apontaram de novo o dedo às alegadas pressões sobre empresários e ao condicionamento de jornais e jornalistas, com os casos TVI e "Público" à cabeça e ao clima de medo generalizado na sociedade. E se Pacheco Pereira defende que "mais valia" que Cavaco "dissesse tudo" antes das eleições, a direcção do PSD prefere não confrontar a presidência da república com tal exigência.
O silêncio sobre a demissão de Fernando Lima foi extensível a Deus Pinheiro e Marques Mendes, que discursaram em Braga antes de Ferreira Leite: não fizeram uma única referência ao assunto e não estiveram disponíveis para comentá-lo à saída.
Apenas o presidente da JSD, Pedro Rodrigues falou sobre o tema, rotulando-o de "fait divers" lançado pelo PS para "iludir os portugueses". E Augusto Santos Silva voltou à baila. "Torna-se no ministro dos assuntos para lamentar quando vem dar lições de como defender a liberdade de expressão", criticou o líder da juventude social-democrata, antes de acusar o ministro socialista de ter chamado fascistas "a professores que se manifestavam" e de ter dito que "gostava de malhar na direita".
Nas restantes intervenções políticas da noite de ontem destacaram-se, novamente, as críticas a Sócrates. Marques Mendes apelou à união dos militantes em torno de Ferreira Leite nos últimos dias de "uma campanha difícil para o futuro de uma governação decente para Portugal". Num discurso pautado pelas alusões ao "cansaço dos portugueses pelo estilo arrogante, prepotente e teimoso" da governação socialista, Marques Mendes defendeu que os eleitores não devem deixar-se iludir pela "pirotecnia política" da campanha do PS. "Isto não é porreiro, pá", atirou, depois de elencar os principais problemas do país e de acusar Sócrates de não ter "emenda nem perdão".
Já Deus Pinheiro centrou-se na crise económica do país e acusou o PS de ter desaproveitado os fundos europeus e de ter sido omisso nas políticas de apoio às pequenas e médias empresas. Uma área onde Marques Mendes sugeriu mesmo a Ferreira Leite que pondere a criação da pasta de ministro das PME.
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