Legislativas
PS aumenta pressão sobre Cavaco
Publicado em 23 de Setembro de 2009
Nos bastidores, os socialistas dizem que o Presidente perdeu isenção para ser árbitro
O PS fez subir ontem a pressão sobre o Presidente da República: na Guarda, o cabeça-de-lista Francisco Assis fez um ataque violentíssimo contra "a direita reaccionária e conservadora" que primeiro "tentou difundir a ideia da existência asfixia democrática" para "a seguir construir uma inventona de factos para suportar esta teoria". "Aqueles que diziam que falavam em nome da verdade falaram, como nunca ninguém antes, em nome da mentira", denunciou Assis, numa mensagem totalmente dirigida, como não podia deixar de ser, a Cavaco Silva. O Presidente nunca desmentiu, durante mês e meio, que suspeitava que o governo tinha posto Belém sob escuta e, ainda na sexta-feira, ameaçou, interrogado sobre a polémica das escutas, que depois das eleições iria desencadear uma investigação sobre "segurança".
A seguir, foi José Sócrates: "Hoje está claro para todos os portugueses quem é o referencial de estabilidade, o partido que se impõe como referencial de responsabilidade". Para Assis, "num momento grave de crise de valores que se vive na sociedade portuguesa, precisamos de um homem vertical e corajoso à frente de Portugal". A marca da "credibilidade", obsessivamente reclamada por Cavaco Silva e Manuela Ferreira Leite, estava de repente a mudar de mãos.
Antes, Sócrates tinha considerado "ridículo, se não fosse trágico" o ataque de Nuno Morais Sarmento sobre uma "agenda escondida" entre o PS e o Bloco de Esquerda. "Isto demonstra bem o desnorte e o desespero da campanha do PSD, que começou com a asfixia democrática, depois passou à invenção das escutas e termina agora com uma espécie de invenção de um acordo secreto", disse o candidato do PS no meio de uma multidão que o esperava na Guarda.
Próximos capítulos Para o PS, a história não acabou com a demissão de Fernando Lima, o assessor de sempre do Presidente que passou para o "Público" a notícia de que Belém suspeitava de estar sob a vigilância do governo. Sem pedir expressamente a cabeça de Cavaco, como já começa a fazer o Bloco de Esquerda quando, na segunda-feira, admitiu a possibilidade do Presidente renunciar ao mandato, os socialistas consideram - em off, claro, para já - que o Presidente perdeu condições de isenção e margem de manobra para servir de árbitro. "Um ponto de não retorno", afirma um dirigente.
Viragem da campanha? A vida é irónica, a política três vezes mais: Cavaco Silva, suspeito de favorecer a agenda de Manuela Ferreira Leite desde a sua eleição, acaba por dar uma machadada de proporções ainda imprevisíveis nas hipóteses eleitorais da sua amiga e do seu partido. Luís Filipe Menezes lembrou ontem que Cavaco Silva já tinha prejudicado a campanha de Fernando Nogueira e a de Santana Lopes, mas tanto num caso como noutro Cavaco Silva agiu deliberadamente, movido pelo seu interesse pessoal: em 1995, desmentiu Fernando Nogueira quando o então líder do PSD, em plena campanha, afirmou saber que Cavaco Silva se iria candidatar às eleições presidenciais (o que, de resto, acabou por acontecer).
Em 2004, Cavaco recusou aparecer nos cartazes de Santana Lopes ao lado dos outros ex-líderes do partido, invocando que isso lhe prejudicava "a carreira académica" (quando era público que Cavaco já preparava a candidatura presidencial que anunciou pouco tempo depois da derrota de Santana, um líder do PSD que fulminou quando escreveu um artigo a chamar-lhe "má moeda"). Desta vez, ninguém percebe.
A verdade é que, se José Sócrates parecia mais embalado com sondagens favoráveis, as grandes mobilizações de rua, o comício de Alegre em Coimbra e a gigantesca manifestação com Mário Soares no Porto; a demissão de Fernando Lima - e a derrota de um dos eixos da tese da "asfixia democrática" - indicia uma viragem que depois dos 26% das europeias muito poucos arriscariam.
O impressionante mar de gente na Guarda, uma câmara governada pelo PS, significa que o aparelho socialista agora está a trabalhar, ao contrário do que aconteceu nas europeias. Mas pode também significar que, desta vez, as sondagens estão a "bater certo".
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