Fotografia
Uma Arca de Noé no cartão de memória- vídeo
por Clara Silva, Publicado em 21 de Setembro de 2009
Desde um minúsculo escaravelho até à baleia azul, as fotografias de Luís Quinta já foram transformadas em selos
Poucos terão coragem de ficar sozinhos nas profundezas do mar com uma máquina fotográfica e um tubarão de quatro metros. Muito menos quando o tubarão, com um sorriso bem afiado, satisfaz a curiosidade própria de um animal selvagem dando pequenas dentadas a quem está à sua frente. "Fazem isso para testar o que ali está, se é duro ou mole", explica Luís Quinta, 44 anos, que começou a tirar fotografias subaquáticas aos 23.
"Uma dentada de tubarão, por muito pequena que seja, pode fazer uma grande mossa", diz o fotógrafo que fundou a revista "Mundo Submerso". Luís nunca teve problemas debaixo de água, mas a sua objectiva já captou um tubarão-mako, o mais rápido da espécie e, num passeio pelas águas do cabo Espichel, até já se cruzou com um tubarão-frade, uma simpática criatura que pode medir até dez metros. Antes de mergulhar, este fotógrafo tenta saber tudo sobre os seus modelos fotográficos. "Se as baleias estiverem a nadar tranquilamente é porque estão calmas. O mesmo se passa com os tubarões, nadam mais depressa se estiverem nervosos e é importante não tapar as possíveis fugas." Conhece os animais marinhos desde os 14 anos, altura em que começou a fazer pesca submarina. "Mesmo em águas turvas consigo reconhecer um peixe só pela maneira de nadar", conta.
Em 1995, depois de uma temporada nos Açores a fotografar cetáceos, Luís subiu à superfície e alargou o seu portefólio. "Fotografei tudo, desde um escaravelho deste tamanho", diz enquanto mostra uma distância menor do que o seu dedo, "até passarinhos ou uma baleia azul". Foi nessa altura que começou a fazer reportagens para várias revistas sobre temas invulgares, como o mergulho em cavernas ou os apanhadores de algas.
De todos os animais, Luís prefere as águias: "São bichos com muita personalidade." Gosta também daqueles a que chama "animais do azul", espécies que só se encontram em alto-mar, como atuns, espadins, baleias ou tubarões. "Há uma enorme fantasia à volta dos golfinhos, têm aquela boca que parece um sorriso e as pessoas adoram", diz com algum desdém, embora os seus saltos também façam boas fotografias. "Tenho uma distância maior e sei que os bichos têm regras agressivas entre eles, são ditadores."
As imagens da natureza que captou desde que começou a colaborar para revistas como a "National Geographic", em 1989, já lhe valeram algumas homenagens. Em 2004 foi considerado pelo governo um dos Novos Heróis do Mar e pode orgulhar-se de ter tido milhares de portugueses a lamber as suas fotografias, transformadas em selos pelos CTT.
"Quando estive 15 dias no mar Vermelho, confrontei-me com um inglês ou um alemão que faziam muito mais fotografias e algumas melhores do que eu", confessa. Por isso optou por fotografar todos os recantos de Portugal. Conhece a costa continental de norte a sul e já desceu todos os montes submarinos do país.
Luís Quinta trabalha agora no Wild Wonders, um projecto que reúne os 68 melhores fotógrafos de natureza europeus. "O objectivo é dar a conhecer as nossas espécies e paisagens a outros países. Na Rússia não fazem ideia de como é uma foca-monge das ilhas Desertas."
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