Editorial
Ai Portugal
por Martim Avillez Figueiredo, Publicado em 19 de Setembro de 2009
Há momentos graves na história de um país - eis um deles. A separação dos poderes exige que a justiça intervenha sem hesitações. E que no dia 27 os eleitores salvem Portugal
Há momentos na vida de um país que ficam para a história - uns celebram-na, recordando momentos gloriosos e feitos de homens grandes. Outros afundam-na, invocando a vergonha e erros de homens pequenos. O episódio que envolve a Presidência da República e o governo de Portugal afundam uma memória colectiva. Em Agosto, quando surgiu esta história, escreveu-se aqui: Portugal não aguenta outra história que termine sem culpados. E agora? Eis um raciocínio em sete etapas, como os pecados mortais.
Um: Confirmar-se que Fernando Lima foi enviado por Cavaco para revelar as suas preocupações a um jornalista é passado. Nada sai de Belém sem que o Presidente tome conhecimento. Escolher este método sombrio, também ficou escrito, é que não faz sentido. Um Presidente não fala através de jornais - exerce o seu poder.
Dois: O que altera este episódio é Cavaco Silva continuar a preferir o silêncio ao exercício desse poder. Os tempos não são neutros - faltam nove dias para as eleições e um homem experiente como Cavaco sabe bem que esta história, assim dita, só prejudica Ferreira Leite.
Três: José Sócrates tem razões para se queixar e insistir na ideia de que uma enorme maquinação foi montada para impedir a sua reeleição. Suspeitas de um assessor de Cavaco não são factos.
Quarto: Isto dito, fica o essencial. Em Portugal escutam-se pessoas e instituições. Seja Belém sejam jornalistas, empresários ou procuradores, todos sabem hoje que é simples espiar o que dizem ou escrevem. Um email como o revelado ontem é uma agulha num palheiro - e as agulhas não se descobrem em palheiros. Alguém as apanha porque sabe onde estão.
Quinto: O i conta hoje que o procurador-geral da República admite finalmente investigar o caso. Tal como o Conselho de Fiscalização da Assembleia da República. Finalmente. Até aqui comportaram-se como protagonistas de uma dessas histórias que afunda a memória de um país, procurando ridicularizar o que não tem lado ridículo. Os pais ensinam aos filhos que não se brinca com coisas sérias.
Sexto: A justiça, num momento em que a confiança nos políticos se desmorona, funciona como último reduto. Um homem grande, desses que a história celebra, pensou que a política poderia um dia falhar - e concebeu um sistema de governo em que os diferentes poderes se controlam entre si. Isso: Montesquieu. É esse seu esquema de separação de poderes que a Constituição portuguesa consagra. E por isso a justiça agora surge como oásis. Repita-se: Portugal não aguenta outra história que termine sem culpados.
Sétimo: A confiança que os eleitores depositam naqueles que elegem tem de ser superior a estratégias políticas. Essa confiança será sufragada nestas eleições - e não pode deixar nenhum protagonista incólume. Louçã, por exemplo, continua a apelidar este assunto de tontice! Não é tontice - é assunto de Estado. E é nestes momentos que a sabedoria popular tem de emergir para preservar a sua história de grandeza.
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