Três dias inteiros para um festival chamado Tattoo&RockFestival(1)... Há assim tanto para dizer sobre tatuagens?
Há. Tanto que até existe um museu em Amesterdão só sobre esta técnica, que hoje em dia já é considerada uma arte.
Vai dizer-me que aquelas imagens de tribos selvagens com desenhos na cara são consideradas tatuagens?
Sim, claro. É considerada uma tatuagem qualquer desenho definitivo impresso na pele, mediante uma técnica em que os pigmentos ficam debaixo da superfície cutânea. A primeira máquina eléctrica usada para tatuar foi patenteada em 1981, mas muito antes disso já se faziam tatuagens com técnicas artesanais. Nesse museu de Amesterdão existem gravuras que documentam tatuagens em tribos no século xviii, mas esta arte é considerada milenar graças a descobertas de múmias muito mais antigas do que isso. Também há relatos de historiadores e exploradores que o comprovam, como Marco Polo e James Cook. Até Darwin fala de tatuagens nos diários das suas viagens.
Deixando Darwin e as múmias, o que é preciso para fazer uma tatuagem?
Basicamente só é preciso tempo e dinheiro. E escolher um estúdio autorizado, com as normas de segurança e higiene em dia, e um tatuador Da Vinci e não Pollock, ou seja, alguém com um traço firme que garanta uma coisa bem feita.
Quais são os melhores estúdios?
Em Lisboa, a Queen of Hearts, que organiza o Tattoo & Rock Fest, e a Atomic. Depois também há a Bang Bang (2), em Sintra; a Lucky 13 e a Downtown, no Algarve; a Fun Tattoo, em Gaia; e a Just Tattoos, em Leiria.
E há algum tatuador de primeira liga, um Cristiano Ronaldo das tintas?
Nunca se fez uma eleição nem se atribuiu nenhum equivalente da Bota de Ouro, mas na comunidade de aficionados das tatuagens pode falar-se de alguns nomes mais fortes, como Pedro Mascarenhas, da Queen of Hearts; "Guru", da Downtown, melhor para os retratos e o realismo; e Francisco (assim mesmo, só Francisco), dono da Atomic e um dos tatuadores mais antigos em Portugal.
Depois que mais é preciso?
Em relação ao que quer tatuar, há três hipóteses: pode levar o desenho de casa e propô-lo ao tatuador, pode levar só uma ideia e pedir uma proposta, ou pode escolher um "flash", ou seja, um desenho dos que estão disponíveis nos catálogos. Há uma quarta hipótese, que acontece em casos muito raros, em que o cliente dá total liberdade ao artista. "Isso geralmente acontece por coleccionismo", esclarece Pedro, da Queen of Hearts, "para quem liga ao nome do tatuador".
Há alguns desenhos mais na moda?
Agora saem muito as carpas, as tatuagens em estilo japonês (3) e os retratos de familiares ou pessoas que se admiram. A moda está a ser ditada, em parte, pelo programa "Miami Ink" (4), que passa no People & Arts e acompanha um estúdio em Miami.
Então e não é necessária nenhuma preparação da pele?
Não, os cuidados a ter vêm depois. Escolhido o desenho e marcada a sessão - atenção, que se for menor de 18 tem de levar uma autorização -, o tatuador faz um decalque do desenho em papel vegetal sobre a pele e começa a tatuar. Quando a tinta entra na pele é que já não há volta a dar. Por isso convém pensar bem no que se está a fazer antes de escrever "Amo-te Mónica" sobre alguém que lhe pode destroçar o coração.
Não há mesmo forma de tirar uma tatuagem?
Haver há, com laser. Mas é um processo que demora tempo e que pode deixar algumas cicatrizes, por isso o melhor é pensar muito bem antes de fazer a tatuagem. Afinal o que a distingue é que é algo que se carrega para sempre.
É verdade que se eu tiver pânico de agulhas não vou conseguir fazer uma tatuagem?
Há uns anos seria verdade, actualmente não. Na época do Ultramar, quando os combatentes faziam aquelas tatuagens a dizer "amor de mãe" ou "Angola 69", aí sim, seria incapaz. As tatuagens eram feitas com agulhas embrulhadas num fio, era preciso estômago. Hoje em dia usam-se máquinas que fazem com que as agulhas mais pareçam canetas pontiagudas que outra coisa.
Não me diga que não dói?
Não, isso não. Durante a sessão dói. E se não conseguir ver sangue é melhor não olhar, porque ao tatuar saem sempre algumas gotinhas.
Qualquer superfície é tatuável?
Sim, até o interior da boca. Aliás, o homem mais tatuado do mundo, que até está no "Guiness", está 100% tatuado.
Há sítios do corpo onde doa mais?
Sim. Geralmente é nas zonas de ligação: da anca para a perna, nos cotovelos e nos joelhos. Também se pode dizer que dói muito nas costelas, na barriga, no peito do pé e nos dedos.
Isso é quase tudo... Quanto tempo dura o suplício?
Não é um suplício, é completamente suportável e pode pedir-se ao tatuador que espere um pouco numa parte mais complicada. O tempo de cada sessão varia muito de tatuador para tatuador. Qualquer desenho pequeno, como uma estrela, demora uma média de 30 minutos, porque é sempre preciso preparar e esterilizar a sala, para prevenir infecções, e também o material, que é sempre descartável. Um trabalho maior, como um braço completo, é dividido em várias sessões, de duas a quatro horas cada.
E isso é coisa para custar quanto?
Quase todas as lojas praticam um preço mínimo que ronda os €60 (5) ou €80. Depois varia muito consoante o desenho. Uma tatuagem média fica em €100, um braço completo é trabalho para ir dos €600 aos €1000.
Falou que os cuidados vêm depois. Quais são?
Deve manter-se a tatuagem limpa e hidratada durante nove dias. Também não se deve apanhar sol durante 15 dias. Depois disso pode-se fazer uma vida normal.
Normal? Ouvi dizer que quem faz uma tatuagem não pode fazer transplantes.
Pode, desde que passado um período de quarentena que vai de seis meses a um ano. No Lusotransplante, que gere as doações e transfusões de medula óssea, é preciso ainda um comprovativo de que a tatuagem foi feita num local autorizado. De resto, passado o período, é possível doar sangue e medula. Desde que...
Desde que o quê?
A picada ou a punção não podem ser feitas num local coberto de tinta, porque ainda não são conhecidas as contra-indicações que a tinta pode ter para o organismo, nomeadamente na espinal medula. É por isso que alguns anestesistas se recusam a dar epidural a mulheres tatuadas no fundo das costas.
Há mais riscos para a saúde de que as pessoas devam saber?
Os dermatologistas opõem-se sobretudo à falta de legislação em relação aos pigmentos que são usados, porque existem tintas cancerígenas no mercado e não há um controlo sobre isso. De resto, após a tatuagem podem ocorrer infecções na fase de cicatrização ou haver alergia aos pigmentos e é por isso que é tão importante escolher um local autorizado, que esterilize a sala. Mas ainda não há estudos conclusivos sobre se as tatuagens fazem mal ou não.
Com tanta controvérsia, porque é que as pessoas se tatuam?
Responder a isso é responder porque se gosta do Verão... É que há as mais variadas razões. No livro "1000 Tattoos" (6), Henk Schiffmacher exemplifica algumas: pode ser para assinalar um momento de alegria ou tristeza, para lembrar os mortos ou demonstrar o amor por alguém, gravar uma data especial ou até funcionar como modo de subsistência, como sucedia com os artistas de circo (7) no início do século xx. Houve tribos em que a tatuagem representava uma forma de entrar no Céu, uma espécie de passaporte que garantia que a alma não se perdia. Nesse livro apresentam-se histórias mais específicas muito curiosas, como a que conta que os pescadores do Mali desenham golfinhos para se protegerem dos tubarões. Ainda hoje há significados muito específicos. Na máfia russa, por exemplo, quem entra tatua duas estrelas nos joelhos, que significam que não se ajoelha perante ninguém.
Há alguma nova tendência nas tatuagens?
Sim. Além das tatuagens aplicadas à cosmética, com o contorno dos olhos ou o preenchimento das sobrancelhas de modo permanente, agora também existem as tatuagens aplicadas à publicidade.
Como assim?
Anúncios, mesmo. Tal como se forram os Smarts, também se "forram" pessoas como outdoors. Isto ainda está a começar, sobretudo nos EUA, mas pode vir a dar que falar, e sobretudo que ganhar, porque o princípio é o mesmo dos espaços publicitários: alguém vende uma parte do corpo a uma empresa, e essa empresa paga. Quanto mais visível for, mais caro. Uma testa, por exemplo, vale mais do que um joelho.
O festival decorre na Sala Tejo do Pavilhão Atlântico, em Lisboa. Sexta das 15h00 às 24h00; sábado das 12h00 às 02h00, com concertos; domingo das 12h00. €5 o bilhete diário, €10 os concertos de sábado, a partir das 19h00. www.tattoorockfest-lisbon.com




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