PRIMEIRO PLANO

"Os espanhóis" e outras histórias florentinas

por João Cardoso Rosas, Publicado em 17 de Setembro de 2009   
Em política, a reivindicação da verdade serve sempre para esconder as inverdades de quem a invoca
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A campanha abandonou agora a respeitabilidade dos debates e passou à fase mais suja. É talvez normal. Mas não seria com certeza de esperar, pelo menos para os menos avisados, que a lama fosse atirada do lado de Ferreira Leite. No entanto, foi isso mesmo que aconteceu.
Já no último debate a líder do PSD tinha acusado Sócrates de ser o homem dos espanhóis em Portugal. Agora insiste na tónica. Se não soubéssemos que esta artimanha retórica produz sempre os seus efeitos, ela até poderia ser motivo de divertimento. Mas o golpe é baixo e é clássico. Quando se pretende desqualificar alguém basta chamar-lhe traidor, inimigo do povo ou agente dos espanhóis.
Ferreira Leite abriu o jogo e passou a fazer às claras aquilo que tem sido a sua estratégia desde a pré-campanha: a descredibilização do adversário, sem hesitações nem contemplações.

 

Ou seja, ela comporta-se como um advogado que sabe que uma dada testemunha hostil é credível e, por isso mesmo, recorre a todos os expedientes para anular essa credibilidade.

 

Também esta semana Ferreira Leite foi aos Açores dizer que Sócrates tem um projecto de poder pessoal e apenas isso. Ou seja, em relação ao programa do PS no seu conjunto, tal como em relação ao TGV, ela não perde tempo a dirimir argumentos, a sopesar vantagens e desvantagens. Ataca directamente a credibilidade do adversário. Sócrates tem ideias diferentes? Não, tem apenas um projecto de poder pessoal.
Se pensarmos nestas duas histórias de campanha como reveladoras de um modo de actuar podemos compreender melhor o que se passou para trás. Pense--se na "asfixia democrática" do continente e em como ela deixou de existir na Madeira, só porque aí é praticada pelo PSD. Pense-se nos apelos à ética, subitamente suspensos quando se tratou de favorecer um amigo político, o famoso "homem da mala". Pense-se no modo como a líder do PSD tratou a sua oposição interna: à boa moda florentina, eliminando todos aqueles que lhe pudessem fazer sombra, sem qualquer remorso nem respeito.
Parece estranho mas, diante de Ferreira Leite, Sócrates, o político profissional, começa a surgir como um homem excessivamente bem-intencionado, ou até um pouco ingénuo. Anda por aí a apresentar, com insistência, a obra feita e o programa para a próxima legislatura. Ferreira Leite, por seu turno, parece estar a levar demasiado à letra os ensinamentos de Maquiavel.
Mas o modo de actuar da líder do PSD está perfeitamente em linha - digo-o sem qualquer ironia - com a campanha da "verdade" e da "seriedade". A reivindicação da verdade em política serve sempre para esconder as inverdades de quem a invoca. A construção publicitária de uma imagem de seriedade serve sempre para disfarçar a falta de seriedade. Estas palavras - "verdade" e "seriedade" - têm como único objectivo fazer existir virtualmente aquilo que não existe realmente e, a contrario, lançar sobre os adversários a suspeita e a calúnia.

Professor universitário

de Teoria Política



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