Nas mãos de Thakoon Panichgul, um dos costureiros preferidos de Michelle Obama, está um tecido de grande luxo. Um jacquard italiano, feito de lãs de oito cores e que custa mais de 100 dólares (68 euros) o metro. Um vestido que Panichgul tenciona fazer com esse tecido, para a sua passagem de modelos da próxima semana, vai custar 2 mil dólares (1300 euros).
Panichgul larga o tecido. Incomoda-o que, por mais que as pessoas gostem de roupa bonita, não compreendam por que é tão cara. "Está a tornar-se uma batalha perdida", lamenta.
A alta costura - a fonte criativa da indústria norte-americana do vestuário, o motor das revistas de moda, a matéria do sonho de todos - atravessa uma depressão grave. Com a chegada de uma nova temporada de passagens de modelos em toda a cidade, com um pano de fundo retalhista dos piores de há muitos anos, muitos crêem que não se trata apenas de um momento difícil para a moda de luxo, mas de um momento determinante.
Eis a realidade: cada vez mais pessoas compram na H&M e noutros fornecedores do chique barato. As fábricas que oferecem produtos de alta qualidade em Nova Iorque e em Itália estão a fechar, à medida que os negócios se estão a transferir para a China. Os consumidores não vêem longevidade nas roupas que compram. "Penso que a verdadeira alta costura corre risco, sem dúvida", diz um importante executivo de compras da Macy's, falando apenas oficiosamente.
Com clientes receosos de comprar, as lojas cortaram 30% das encomendas para o Outono. Para a próxima Primavera - as colecções são apresentadas durante a New York Fashion Week até amanhã - têm-se visto poucas melhorias. "Nos meus 40 anos no sector da moda, nunca vi as mulheres com medo de comprarem a qualquer nível de preços", assume Vera Wang, que vende vestidos a mil dólares (680 euros) em armazéns como o Bergdorf Goodman e que também tem uma linha de preços baixos no Kohl's.
Os retalhistas têm pressionado estilistas como Vera Wang a baixarem os preços. Quem tenha atravessado um armazém vazio nos últimos meses pôde ver por que razão isso é necessário. Na terça-feira, a Neiman Marcus anunciou uma perda de 668 milhões de dólares neste ano (456 milhões de euros). Essa cadeia de armazéns de luxo relatou que as últimas vendas trimestrais das lojas abertas há pelo menos um ano caíram 23% desde há um ano. O Saks reportou uma queda de 16%. Na quinta-feira, o sector tentou entusiasmar as pessoas com a abertura fora de horas de lojas em toda a cidade, chamando-lhe Fashion's Night Out.
Os fabricantes de moda de topo de gama estão a calcular até quanto poderão baixar os preços sem perderem prestígio nem comprometerem a criatividade. Vera Wang revela que baixou 40 % os preços na colecção de Verão, mas soube por algumas das lojas que esses vestidos de 600 a 800 dólares (410 a 547 euros) talvez não tivessem qualidade suficiente para uma marca de primeira qualidade. "Não sei o que vai acontecer. Vai ser um mundo de 'crepe da China'" diz Wang.
Look seguro Embora a alta costura represente apenas uma pequena parte dos 191 mil milhões (130,5 mil milhões de euros) do sector do vestuário nos EUA (e muitos consumidores não lamentariam o desaparecimento das prateleiras de vestidos a 2 mil dólares), a criatividade das colecções nas passerelles inspira o mercado de massas e lança tendências que levam os compradores a voltar a comprar nas lojas, de estação em estação, incentivando um vasto segmento da economia.
Nos 40 anos, desde que o pronto-a-vestir moderno ganhou vida na Europa e nos EUA e tornou famosos nomes vulgares como Ralph, Calvin Kleine e Donna Karen, os estilistas ganharam enorme respeito e prosperidade. Contudo, nos últimos anos, perderam face junto dos consumidores. As suas roupas tornaram-se exoticamente caras, uma vez que cortejaram celebridades e fizeram negócios pouco claros com os fabricantes de moda rápida.
Na semana passada, essa situação atingiu um máximo, quando a casa parisiense Emanuel Ungaro - outrora orgulho e alegria do Upper East Side de Manhattan - anunciou ter contratado Lindsay Lohan como conselheira artística.
Um outro impacto da recessão na alta costura é o recuo dos costureiros para estilos mais previsíveis, uma repetição do look seguro que se vendeu bem nas anteriores estações. O estilista Elie Tahari, cujas marcas geram cerca de 500 milhões de dólares de vendas (341 milhões de euros), está a concentrar-se nos vestidos, nos padrões estampados de animais e nos leggings e calças justas para se usarem com túnicas.
"A moda tem de ser nova e usável, as pessoas têm de sentir que ela é necessária", diz. Tahari baixou os preços em 30% e fechou uma fábrica de carteiras que tinha em Itália, transferindo a produção para a China.
Até Oscar de la Renta, o verdadeiro emblema da alta costura nova iorquina, conhecido pelos seus vestidos e fatos a 4 mil e 5 mil dólares (2734 a 3417 euros), tenciona apresentar um vestido a 1500 dólares (1025 euros) na sua colecção de Primavera para corresponder às necessidades dos retalhistas.
E embora tenha recentemente comprado uma fábrica de vestuário local que estava para fechar, para ajudar a manter os padrões de qualidade da sua marca, também procurou fornecedores mais baratos na Ásia e na Europa de Leste.
No seu estúdio da 7ª avenida, Oscar de la Renta apontou para um vestido preto sem mangas com dois painéis tricotados e com folhos. Os painéis, feitos na Roménia e combinados com uma lã italiana, vão contribuir para que o preço do vestido se mantenha a 2500 dólares. E Oscar de la Renta gosta de um faille de seda que vem de uma produção da Coreia do Sul. Além do preço - custa um terço do faille italiano - gosta do aspecto. "Oiça, a Prada usa-o há anos."
As casas de moda europeias, com o seu savoir-faire e grandes orçamentos - graças às vendas de produtos de pele e perfumes - poderão conservar uma vantagem criativa relativamente aos seus parceiros do outro lado do Atlântico, que poderá vir a ter importância no mercado. "Ainda há clientes que querem fabrico de qualidade", recorda Ann Stordahl, directora-geral de mercadorias do Neiman Marcus.
Mas há, em tudo isto, um paradoxo. Em última análise, o que distingue a alta costura é o apreço pelas pequenas diferenças: no corte e no tecido. São essas as ferramentas criativas de um estilista. Retire-se-lhe uma ferramenta e ele terá menos com que fazer o seu trabalho.
Joseph Altuzarra, um jovem designer em Nova Iorque, é especialista de vestidos em crepe georgette com "favos de mel" que custam cerca de 2 mil dólares e são fabricados em França. Recentemente, perguntou à fábrica se podiam simplificar o processo dos favos para baixar os custos. A fábrica recusou-se.
"Disseram que teriam vergonha de produzir material de qualidade inferior", recorda.
Exclusivo i, "The New York Times"




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