Acrobacias

À boleia de um glorioso maluco das máquinas voadoras - vídeo

por Nuno Castro, Publicado em 10 de Setembro de 2009   
Apertem os cintos. Fomos dar uma volta num dos aviões que estará na Red Bull Air Race, este Domingo no Porto
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"Coffee, tea, water?" A pergunta que todas as hospedeiras devem ter na ponta da língua não se ouve a bordo do Extra 300. Hospitalidade não é ponto forte da tripulação. Aliás, a tripulação resume-se a Filipe Conceição Silva, o piloto acrobata que daqui a alguns minutos me vai passar o comando do avião. Não tem 1,80m, cabelos louros ou decotes generosos. E em vez de uma bandeja com bebidas, traz um saco de plástico preto, que me atira para o colo.

- Se te sentires mal, desvia o microfone e vomita para aí.

- Mas é costume os passageiros enjoarem?

- Não. Mas às vezes acontece. E o voo vai ser bruto, não vamos andar a fazer sight-seing.

Senhoras e senhores, Ladies and Gentleman, são 12h35m em Portugal Continental, apertem os cintos porque o voo acrobático do Extra 300 com destino ao Cabo da Roca vai descolar do aeródromo de Tires.

Força g Já imaginou um Mini com a potência de um Ferrari? Estamos sentados na versão aérea dessa união explosiva. Enquanto um jumbo pode pesar 120 toneladas, o Extra fica-se pelos 600 quilos. Tem 300 cavalos e chega aos 370 km/h - pouco se compararmos com os 900 km/h do elefante dos ares. Mas o que um avião comercial não faz, porque se desintegraria, são os loopings, oitos, voos invertidos e todo um cardápio de manobras que Filipe tem na manga e que deixará o avião exposto a forças de 5G - a unidade de medida da força da gravidade, o que significa que teremos de aguentar uma pressão cinco vezes superior ao peso do corpo. "Comparado com o que se faz no Red Bull Air Race, é para meninos. Lá chegam às 12G", diz Filipe. Talvez, mas, alerta a Wikipedia numa pesquisa feita antes de sair de casa, na exigente Fórmula 1 o máximo que se atinge são 4G e uma pessoa normal sujeita a uma aceleração superior a 5G pode desmaiar...

Cabeça no ar "DXEUG [matrícula do Extra] pede autorização para descolar. É um voo de 15 minutos ali no Cabo da Roca", comunica Filipe à torre de controlo. "Roger, autorização concedida. Atenção que há nuvens a 800 pés no Cabo da Roca", respondem do outro lado. "Ok, é da maneira que vamos voar mais baixinho", ri-se o piloto, poucos minutos antes de levantar voo e abrir o livro de manobras com um looping logo à saída do aeroporto. O Extra 300 é um dos aviões que estará no Red Bull Air Race, no Porto. Não vai competir, apenas será utilizado para os espectáculos aéreos nos intervalos da competição. "Segue para o norte amanhã [hoje]. Este aparelho é muito semelhante aos que são usados na corrida. A potência e o motor são iguais", explica Filipe, acabadinho de chegar de Luanda. de onde trouxe um avião da TAP. O piloto é comandante da companhia, mas há 15 anos resolveu fazer um curso de aperfeiçoamento e fundou a Aerobática, que se dedica à acrobacia aérea. Por €200, a empresa faz voos de exibição em casamentos, festas e até funerais - "foi para um piloto". O negócio está a começar a endireitar-se, apesar dos custos: "Só este avião, de 2002, custou-nos 250 mil euros. E há a manutenção, a gasolina [80 litros/hora em acrobacias]... mas agora cada vez há mais procura. A Red Bull Air Race ajudou à divulgação." Filipe, como comentador da transmissão televisiva (na SIC), e o sócio Luís Garção, o consultor técnico, estão os dois ligados à corrida de Domingo.

Montanha Russa "Sentes-te bem?" O polegar levantado significa que as forças G ainda não fazem efeito no pequeno-almoço que deve andar às cambalhotas no estômago. "Então pega na manche [uma espécie de volante das aeronaves]. O avião agora é teu. Segue para o Cabo da Roca." A manche tranforma-se então num joystick: um toque suave à direita e o o nariz do avião aponta à Serra de Sintra. Filipe volta ao comando do aparelho: sobe o Extra 300 e atravessa os montes. "Estão muitas nuvens no Cabo da Roca, vamos fazer umas brincadeiras aqui", diz o piloto pelos auscultadores. Vários loopings, um tonneaux (uma rotação lateral de 360º) e dois ou três voos invertidos depois temos um sorriso infantil e aparvoado colado às orelhas - daqueles que só uma criança a quem dão €10 para gastar à vontade numa loja de gomas pode repetir. Ainda fizémos umas manobras no Guincho, sobrevoámos as praias da linha de pernas para o ar, passámos rente ao mar... As forças G? "4,5 nos loopings", que felizmente não me roubaram o pequeno-almoço.

A Red Bull Air Race começa às 15h de Domingo, na zona da Ribeira do Porto e do Cais de Gaia


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