Reprodução

Fertilização in vitro low-cost, o fim de um luxo

Publicado em 10 de Setembro de 2009   
Tratamentos de fertilidade a partir de 300 euros vão ajudar casais sem filhos em África
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Nahla Khidir e Osman Khalid, 34 e 38 anos, vivem em Khartoum, capital do Sudão. Acabam de ser pais. O final feliz deixa para trás três anos de angústia. Quando casaram não conseguiram engravidar. Nahla pensou que o problema era dela. Khalid descobriu que os seus espermatozóides não eram normais. Histórias como esta são os primeiros sinais de sucesso de uma task-force de médicos que quer tornar os tratamentos de infertilidade universais. O filho de Nahla e Osman é uma das primeiras crianças a nascer em África graças a um pioneiro tratamento de fertilização in vitro (FIV). A grande diferença é o preço.

"Já pensamos nisto há mais de 20 anos, mas não havia ninguém a investir. Se queremos oferecer FIV aos países em desenvolvimento temos de torná-la mais barata. Toda a gente sabe que é possível. Mas é muito difícil convencer as pessoas a apoiar estes estudos e ensaios clínicos", diz ao i Willem Ombelet. O médico belga dirige há quatro anos um grupo da Sociedade Europeia de Reprodução Humana e Embriologia (ESHRE) destinado a reduzir o preços dos tratamentos de fertilidade nos países em desenvolvimento. A versão low-cost a que acabam de chegar supera as expectativas: em breve, cada ciclo de fertilização in vitro poderá custar um décimo dos preços actuais, ou seja, 300 euros. Os ensaios clínicos arrancam no início de 2010 em clínicas da Tanzânia e Egipto. Quando o protocolo estiver terminado, poderá ser utilizado em clínicas de todo o mundo. "Acho que há uma tendência para baixar os preços, embora na Europa os valores praticados também estejam relacionados com os custos da certificação - que tem uma legislação muito apertada e, por vezes, sem qualquer base científica."

Simplificar Dados da Associação Portuguesa de Fertilidade mostram que um tratamento de FIV custa entre 2500 e 3300 euros por ciclo. Para reduzir os custos basta simplificar. "A maioria das tecnologias já estão disponíveis há vários anos", diz Ombelet. "Se hoje um diagnóstico demora várias semanas, conseguimos fazê-lo num dia, com 95% de precisão." Para estimular a ovulação, passam a utilizar Clomifeno, um medicamento que custa 10 euros, em vez das centenas pagas pelos tratamentos com hormonas folículo-estimulantes (FSH). Segundo o médico, apesar de os resultados ficarem aquém do sucesso dos tratamentos mais caros, são "suficientes".

"Com três ou quatro ciclos estamos a falar de uma taxa de sucesso de gravidez na ordem dos 40 a 50%. Nos tratamentos mais complexos, e mais caros, conseguimos 60% a 70% de sucesso." Mas há outras diferenças. Prevê-se que os embriões de reserva fiquem congelados apenas por dois dias - serviço que em Portugal custa entre 220 a 800 euros. Como o tratamento com Clomifeno é menos agressivo, a mulher poderá repetir mais ciclos do que é aconselhado com a FSH. Novos modelos de incubadoras para o período de fertilização - que passa a ser de dois dias em vez de uma semana - abatem outras dezenas de euros.

Problema esquecido Na África subsariana - onde 10 a 30% dos casais são inférteis devido a doenças infecto-contagiosas ou abortos domésticos - a taxa de natalidade é três vezes superior aos melhores índices europeus, Portugal incluído. Cada mulher sudanesa, por exemplo, tem em média mais de quatro filhos; 20% dos casais do país são inférteis. No entanto, doenças como a tuberculose, malária ou sida fazem com que a natalidade não seja uma prioridade de financiamento. O problema "esquecido", segundo Willem Ombelet, não faz sequer parte dos Objectivos de Desenvolvimento do Milénio. "Percebe-se que há outras necessidades, mas isto é um drama social para as famílias." Numa entrevista à "News Scientist", Abdelrahi Allah, ginecologista em Khartoum, resume: "Se não consegues ser mãe, não és considerada normal." Além da discriminação da mulher, a infertilidade masculina é negligenciada. Em países como a Tanzânia, há um andrologista e 104 ginecologistas para uma população de 35 milhões de pessoas.



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