Cinema
Almodóvar: "É preciso dar atenção às mulheres"
por Tiago Pereira , Publicado em 10 de Setembro de 2009
Em entrevista, o realizador apresenta "Abraços Desfeitos", que hoje estreia, e o mundo feminino como fundamental na sua obra
Pedro Almodóvar voltou a ser vitorioso. Mais uma vez, elogios e críticas, gritos de "génio" e parágrafos a desprezar o trabalho em questão. Ou seja, tudo está bem no reino do realizador mais popular de Espanha - melhor, esqueçamos os regionalismos e lembremos que este é um dos mais relevantes cineastas contemporâneos. Dizem uns que tudo está na forma como transforma os seus mais íntimos clichés em cenas dramáticas (aqui o dramatismo é o dele e o de mais ninguém); porque o sexo, através da sua lente, é diferente do de todos os outros; porque os seus filmes são feitos para acolher histórias de mulheres como poucos. "Abraços Desfeitos", que hoje chega às salas portuguesas, é tudo isto, mais uma vez. E de novo com Penélope Cruz no meio do enredo, a protagonizar um pouco de todos estes ingredientes. Em entrevista (cedida pela distribuidora do filme em Portugal), o realizador desvenda segredos de rodagem, confessa dificuldades e explica porque Penélope e o mundo feminino são parte tão fundamental da sua obra.
Porque é que "Abraços Desfeitos" foi um risco?
É um filme muito fragmentado, menos acessível do que "Volver" e, nesse sentido, o público pode vir a enfrentar algo que não lhe é familiar. É sempre mais difícil para o espectador quando um filme não evolui em linha recta, quando as personagens mudam muito.
É um filme que obriga a assistência a concentrar-se.
Sim, o que é bom mas... bem, é também precisamente o meu medo: as pessoas que vão ao cinema concentram-se realmente no que estão a ver? "Abraços Desfeitos" é um filme que requer mesmo que você se sente no escuro e se concentre durante duas horas. Talvez toda a gente devesse vê-lo duas vezes - na segunda vez digere-o o melhor.
Gostou de voltar a trabalhar com Penélope Cruz depois do enorme sucesso de "Volver"?
Absolutamente. Ela não só compreende a minha maneira de trabalhar como é também extremamente generosa. É incansável. Podemos ensaiar eternamente e ela nunca desiste, o que é extremamente importante. Possui uma fé cega em mim e coloca-se nas minhas mãos, o que me dá, como realizador, um poder incrível.
A roupa de "Abraços Desfeitos" é magnífica: que palavra tem a dizer na escolha do guarda-roupa?
Obviamente, trabalho com uma equipa - neste filme com Sonia Grande - mas a sugestão para o estilo vem de mim. Demora muito tempo e é muito importante. Recordo-me de um momento em "Casablanca" em que Ingrid Bergman encontra Humphrey Bogart depois de muito tempo e ela pergunta-lhe se ele se lembra da última vez que se encontraram. Ele diz claro, foi em Paris no dia em que os alemães invadiram a cidade. Ele lembrava-se especificamente que os alemães estavam todos vestidos de cinzento e ela de azul.
A cena em "Abraços Desfeitos" em que Cruz prova uma variedade de perucas é memorável. Transforma Lena noutra pessoa.
E isso é trabalho do realizador. Gostei do processo porque está a construir uma personagem que tem como base alguém - uma actriz - que se coloca à sua disposição. E essa cena é uma cópia exacta do que eu fiz com Penélope na preparação para o filme.
Cruz deixou Espanha para seguir uma carreira em Hollywood. Acha que por lá é vista mais como uma mulher bonita do que como uma actriz dotada?
Completamente. Em Hollywood vêem as actrizes em termos muito óbvios. Não é um sistema arrisque. E as mulheres nos trinta e tais ou no princípio dos quarenta anos são habitualmente vistas como ultrapassadas - com a excepção de Meryl Streep. Estão a desperdiçar um bem tremendo ao não desenvolver a carreira das actrizes.
Costuma falar da infância a que quis desesperadamente fugir: como é que olha agora para esse período? Era um espectador, a olhar de fora para dentro?
Quando tinha quatro ou cinco anos, eu era um espectador completo da vida. Nessa idade, não se tem verdadeiramente uma vida própria. A partir dos oito ou nove anos, tive consciência de quem era e de como era. A partir daí comecei a gravar a vida dos outros, pelo menos na minha cabeça. Durante a puberdade, vivi numa pequena vila e estava à espera - à espera de ir para Madrid, a cidade dos meus sonhos.
Diz que teve consciência de quem era aos oito anos. Quem era você?
Digamos nove para ter a certeza! Tinha a certeza, por exemplo, que me sentia atraído por rapazes. E também por raparigas. Tinha a sensação de que os rapazes me faziam sentir diferente. Interessava-me por cinema e livros. Como vivíamos numa área muito remota, as minhas irmãs faziam muitas encomendas: eu pedia livros ao calhas. Tornei-me num leitor intenso.
Como reage à sua educação religiosa?
Estudei com frades e, obviamente, estava sempre rodeado por Deus. Pensava que Deus era uma boa ideia mas não sentia aquele sentimento profundo de fé. Não quero parecer que era mais esperto do que toda a gente, mas preocupei-me com estas "grandes" questões desde que me lembro. Acho que a fé é um dom e eu não o recebi.
Renunciou a Deus?
Não. Mas quando tinha. Disse o seguinte: Não te vejo por aí por isso dou-te um ano para te manifestares. Se, depois de um ano, não te manifestares, temo que ficarei condenado ao agnosticismo. E, passado um ano, ele não se manifestou.
Sentiu-se reprimido ao viver num ambiente conservador, percebendo que era provavelmente homossexual?
Não, porque tive uma puberdade inteiramente heterossexual. E não era por tentar esconder alguma coisa, era o que queria. Sentia atracção por rapazes e, depois, por homens, mas não sentia a necessidade de desenvolvê-la. Não me sentia certamente reprimido da maneira em que as minhas duas irmãs mais velhas o foram. Estou a falar do início dos anos 60, quando o resto do mundo estava a deixar crescer o cabelo e, em Espanha, vivíamos como se ainda fossem os anos 40. E mais ainda em La Mancha do que em qualquer outra parte de Espanha.
As pessoas pensam por vezes que compreende tão bem as mulheres porque é homossexual...
Eu sei! É fácil compreendê-las. É preciso dar atenção às mulheres. Não é assim tão difícil!
Se tivesse de escolher uma personagem feminina favorita dos seus 17 filmes, qual seria?
Tenho tantas... Adoro todas as personagens de "Tudo Sobre a Minha Mãe". Mas se tivesse de escolher uma, seria Raimunda, a personagem de Penélope Cruz em "Volver".
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