O grande debate à esquerda deitou por terra todas as pontes- vídeo

Publicado em 09 de Setembro de 2009   
Sócrates vence debate e arrasa programa do BE "contra a classe média". Louçã ganha pontos na acusação de "falta de transparência na economia"
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O arranque do debate marcou o tom: "O PS e o PSD não são iguais", disse Francisco Louçã, quando questionado sobre as suas divergência com o PS. "Isso é uma grande novidade", reagiu de imediato José Sócrates. O frente-a-frente entre os líderes do PS e do Bloco de Esquerda foi o mais animado dos seis já realizados: repleto de interrupções mútuas, ironias, sorrisos e interpelações directas. Com a economia no centro da discussão, a possibilidade de coligação à esquerda ficou mais distante. Pelo menos na aparência.

Depois de acusar Louçã de "fazer da economia um somatório de pequenos casos", o secretário-geral do PS dedicou-se a desmontar o programa eleitoral do Bloco de Esquerda, que rotulou de "estratégia clássica de esquerda radical".

As nacionalizações da banca, dos seguros e do sector energético foram os primeiros alvos do secretário-geral do PS, que insistiu na ideia de que essas medidas "agravariam a crise"."É uma política de quem não conhece o mundo", apontou Sócrates. Mas o principal ataque ao programa do BE centrou-se nas propostas de Louçã para a classe média.

"O programa do BE diz que devem ser eliminados integralmente todos os incentivos fiscais aos PPR, educação e saúde. Estamos a falar da classe média e não de Amorim. Explique isso aos portugueses", pediu Sócrates. Antes de explicar, Louçã agradeceu a atenção de Sócrates. "Sublinho que quem tem a maioria absoluta dedique tanto tempo com o programa do BE", ironizou. "Li ontem", justificou Sócrates. Quem ligasse a TV nesse momento poderia até pensar que a direita não vai a votos.

O fim dos benefícios fiscais foi então explicado pelo líder do BE: "Queremos um ensino gratuito de qualidade. Na Alemanha não há propinas. Noutros países não há taxas moderadoras na saúde. Quero uma economia com bens públicos bem geridos e acessíveis", diz Louçã.

Foi o mote para a troca de acusações sobre a política de fantasia e a política de realidade. "Eu falo de alhos e você fala de bugalhos", apontou Sócrates. "O senhor Sócrates não percebe à primeira, terei todo o gosto em explicar", contrapôs Louçã, reiterando que "não faz sentido deduzir fiscalmente aquilo que deve ser fornecido às pessoas". Uma perspectiva que Sócrates disse "mudar todo o sistema fiscal". "É de um irrealismo atroz", apontou. "Você está no reino da fantasia. Volte a pôr os pés na terra", disse Louçã.

"Francisco Louçã comete um erro ao transformar o PS como inimigo principal, quando a direita defende a privatização e o recuo do Estado social. Eu candidato-me para vencer a direita, você candidata-se para vencer o PS. Isso é absolutamente nocivo ao país", acusou Sócrates na sua primeira intervenção. A resposta de Louçã foi feita com o recurso à ideia de coerência. Ou à falta dela. "Gostava de oferecer-lhe o texto do PS contra o Código de Trabalho de Bagão Félix. Depois, quando foi poder, fez exactamente aquilo que criticava. A esquerda só pode ter uma palavra", defendeu o coordenador do BE.

Quando ainda se esgrimiam argumentos sobre as diferenças entre os dois partidos, o debate mergulhou de cabeça na economia. Com sucessivas críticas de Louçã à "falta de transparência e rigor deste governo" na política económica. E foi dando exemplos concretos. Nomeadamente, a venda da GALP a Américo Amorim e José Eduardo dos Santos e as adjudicações do terminal de contentores de Lisboa e da auto-estrada entre Oliveira de Azeméis e Coimbra à Mota-Engil.

Foi o mote para mais uma sucessão de interrupções. "Este governo é honesto. Você só insinua sobre o Dr. Jorge Coelho", atirou Sócrates. "Houve um acréscimo de 500 milhões no valor da auto-estrada", reiterou Louçã. "Está equivocado, a auto-estrada não foi adjudicada", retorquiu Sócrates. "500 milhões! Podia compensar as pensões mais baixas", insistia Louçã.

Na recta final do debate surgiram finalmente algumas pontes de entendimento. A necessidade de aumentar o investimento público para reanimar a economia e combater o desemprego mereceu a concordância dos dois candidatos. Mas também gerou picardias: o coordenador do BE recordou os 412 mil desempregados que o país tinha quando o PS chegou ao governo. E os 517 mil que tem agora. Sócrates teve resposta imediata: "Quais são as soluções? Você só descreve o problema", disse, antes de apontar a obra feita pelo governo na área social. "Você tem os números na ponta da língua, mas não olha para a realidade social", criticou Louçã.

Foi preciso chegar ao último tema para ver finalmente a esquerda unida contra a direita: "As imagens de Ferreira Leite na Madeira são patéticas e embaraçantes para quem fala da verdade", atirou Sócrates. Louçã tinha dito sensivelmente o mesmo. Mas não esqueceu o ataque a Sócrates: "Eu também via a inauguração do hospital de Seia e as camas que voltaram depois ao fornecedor. A política tem de ser grande."


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