Assaltos: "as ourivesarias estão a saque"
Publicado em 08 de Setembro de 2009
Desde Janeiro já houve mais de 30 assaltos a estas lojas no país, sobretudo no Norte. Braga é o distrito mais crítico
Eugénia Soares desconfia do telefonema do i. É que dias antes de lhe assaltarem a ourivesaria, um inquérito demorado sobre saúde, pelo telefone, quis obrigá-la a dizer quem era, o que fazia, onde trabalhava. A 30 de Agosto, quatro homens encapuzados levaram-lhe 250 mil euros da loja em Sanguedo, Santa Maria da Feira, em dinheiro e bens. Este é um dos assaltos mais recentes a ourivesarias no país. Ao todo, desde Janeiro, já houve mais de 30. As contas são da ANOR - Associação Nacional de Ourives e Relojoeiros, que diz ter por base "recortes de jornais".
Até à hora de fecho desta edição não foi possível recolher o balanço oficial dos primeiros oito meses deste ano, junto da Polícia Judiciária. No ano passado, um total de 103 assaltos revelava um decréscimo de 4,6% face a 2007.
Mas os números podem estar longe da realidade. "Até pode haver menos assaltos, mas existir um aumento do volume roubado ou de crimes de sangue", explica Manuel Freitas. Tornou--se na cara da luta dos ourives contra o crime organizado depois de, em Agosto, ter decidido divulgar, na montra do Museu de Ourivesaria Tradicional, em Viana do Castelo, imagens recolhidas por câmaras de video-vigilância no último de três assaltos.
Faz dois anos esta semana: quatro indivíduos encapuzados entraram-lhe na loja a meio do dia e levaram 800 mil euros em ouro. Em 2001 tinham-lhe roubado 15 mil euros. Em 2003, levaram-lhe 250 mil euros. "Não reavi nada", diz Manuel Freitas ao i. "Neste país vale a pena ser ladrão. Vão a tribunal e nem sequer têm de dizer o que fizeram ao ouro. São presos com todas as provas, ficam em prisão preventiva e depois soltam--nos por erros processuais. Ficam com termo de identidade e residência, mas nós nunca mais vemos nada."
Na sequência deste assalto violento de 2007, um dos criminosos foi morto e um transeunte ficou paraplégico devido à troca de tiros - está agora internado em França, em estado grave, devido a uma insuficiência renal. Os alegados assaltantes, de Vale do Ave, permanecem em liberdade, sujeitos a termo de identidade e residência.
Sábado, 1 de Agosto. Uma ourivesaria no centro de Caldas das Taipas, município de Guimarães, é invadida por quatro homens encapuzados pouco antes da hora no almoço. "Foi um assalto em frente a muita gente. Naquele dia até estavam bastantes pessoas na vila", lembra ao i Alberto Silva, filho do proprietário. A polícia demorou uma hora e meia a chegar. "Já tinham roubado, levado a Toyota...", lamenta o ourives. A loja não tinha videovigilância. O prejuízo ultrapassa os 100 mil euros. O carro levado apareceu queimado em Santo Estêvão de Briteiros. "Até hoje o que sabemos é pelas notícias."
Dia 20 de Agosto foi notícia que a Polícia Judiciária de Braga tinha identificado e detido quatro jovens, entre os 17 e os 23 anos, suspeitos, entre outros crimes, do assalto à mão armada à Taipas Jóias. "Parece que os libertaram depois", conta Alberto Silva.
Segurança Ontem, a Associação Nacional de Ourives e Relojoeiros anunciou como solução para a criminalidade recorrente um programa nacional de reforço de segurança nas ourivesarias. Chama-se Ourivesaria em Segurança e prevê que, a partir de Novembro, obras de requalificação nos estabelecimentos possam ser 45% comparticipadas pelo Estado. Portas e vidros reforçados, sistemas dissuasores de som e de fumo, localizadores de GPS ou sistemas de vigilância são algumas tecnologias de que se querem dotar as ourivesarias.
Para Manuel Freitas, há outros problemas: "A zona de Braga, que é onde há mais quadrilhas associadas a estes crimes, tem o posto com menos efectivos", denuncia. Mas falta também a "comunicação e coordenação entre as autoridades" e uma maior fiscalização sobre o ouro roubado, quer nas ourivesarias quer nas casas de penhores. "Há ourives honestos e outros menos honestos. A realidade é que o ouro desaparece e nota-se um acréscimo na venda de artefactos relacionados com a fundição de ouro."
Qualquer pessoa pode comprar o equipamento necessário para derreter ouro, explica o ourives. Entre os proprietários, estabelece-se que, em caso de compra de peças em segunda mão, a descrição deve ser enviada à Polícia Judiciária, para despistar material roubado. "Nunca tive nenhum problema, mas sempre que desconfio, não compro. Também não vou denunciar, porque sei que não tenho ninguém para me defender caso me apontem uma arma à cabeça", diz. Declarações como esta, no programa "Prós e Contras", da RTP, valeram a Manuel Freitas uma queixa-crime por dois elementos do comando da PSP de Viana do Castelo. "Fiz a minha própria defesa e o caso foi arquivado", diz o ourives.
Norte "As ourivesarias estão a saque", desabafa Alberto Silva, da Taipas Jóias. "Aqui na zona de Braga já quase todas as ourivesarias foram assaltadas, algumas uma e duas vezes." Ontem o director da Polícia Judiciária do Porto admitiu que a ourivesaria ainda é um "sector apetecível" para roubos e furtos, mas que já não se vive a situação "calamitosa" dos últimos anos. "Há grande apetência por enfiar um gorro, pegar numa pistola e ir assaltar uma ourivesaria, que se limpa em dois ou três minutos", resume Baptista Romão.
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