Futebol Internacional
Amaral: "Não sei falar inglês mas digo aleluia com muita vontade"
por Rui Miguel Tovar, Publicado em 08 de Setembro de 2009
O ex-benfiquista dá uma volta de 360º na Austrália, onde vive há um ano.
Amaral, o coveiro. Lembram-se dele? Pois é, ele está de volta ao futebol, pela mesma porta por onde saiu (Perth Glory, da liga da Austrália). Lá, recebe o salário de 15 em 15 dias e não há atrasos há um ano. Lá, não sabe expressar-se em inglês e só diz aleluia na igreja evangélica. O i entrevistou-o e ele falou de tudo, do Benfica de JVP e Preud'homme à Fiorentina de Rui Costa e Nuno Gomes, com algumas dicas de culinária pelo meio.
Porque regressou à Austrália?
O Brasil, já não vale a pena para mim. As portas estão fechadas. Lá, os dirigentes só pensam na garotada e esquecem-se de nós, os veteranos. E há veteranos de qualidade. Veja o exemplo do Maldini - aos 40 anos, no Milan.
Com 36 anos, ainda tem futebol para dar?
Ainda tenho muito talento para queimar. Sou uma pessoa com experiência, tenho um óptimo currículo. No Palmeiras, fui bicampeão brasileiro, com um timaço que mais parecia uma selecção brasileira: Rivaldo, Roberto Carlos, César Sampaio, Zinho, Edmundo. Depois, Benfica do João Vieira Pinto, Fiorentina do Rui Costa e do Nuno Gomes, Corinthians, onde fui novamente campeão brasileiro em 1999, Vasco da Gama do Romário, com o qual também fui campeão nacional em 2000. Muita coisa. E ainda representei o Brasil [31 internacionalizações, zero golos], com participação nos Jogos Olímpicos [JO] de 1996. Aí, perdemos o ouro mas detonámos Portugal [5-0] no jogo de 3.o lugar. E olha que Portugal tinha uma grande equipa, com Nuno Gomes e Calado.
Na sequência dos JO, veio para o Benfica. Como foi?
Em Portugal, o FC Porto, com Zahovic, Jardel e Drulovic, dominava a cena mas o Benfica continuava a ser o maior. Eu ia à casa do Benfica na Suíça, lá na China ou onde fosse, e era uma multidão de pessoas que aguentava até altas horas da noite a chegada dos jogadores e dos dirigentes. Nós, com Preud'homme (que pegava todas as bolas, até nos treinos), Valdo, João Pinto, Nuno Gomes, estávamos em crise mas enchíamos os estádios de todo o país, de Guimarães a Faro. Era impressionante. Nunca vi nada igual. É o maior clube do mundo e olha lá que já estive no Corinthians, que tem a torcida mais fiel do Brasil.
Tem alguma história curiosa no Benfica?
Logo nos primeiros dias, estava a arrumar o meu cacifo e pedi um durex [fita-cola no Brasil] à dona Paula. Ela ficou brava comigo, cara! Não sabia que Durex era camisinha [preservativo].
Já voltou a Portugal?
Fui a Lisboa no primeiro Rock in Rio [2004]. Visitei o novo Estádio da Luz, claro, e disse fita- -cola, claro. Nem imagina o carinho dos adeptos. Parei muitas vezes na rua para dizer olá e conversar sobre um jogo ou outro.
Está na Austrália há 12 meses. Como está o seu inglês?
Mau de mais. Não sei falar, embora receba lições de graça de um dos meus filhos. Entendo-me com eles [australianos] na base da foto e da mímica. Chego aos restaurantes e peço pratos atrás de pratos até gostar de um. Mas sei dizer aleluia. Há aqui uma igreja evangélica que frequento todos os domingos de manhã, mas não sei pronunciar o nome dela. Não entendo nada do que o pastor fala mas grito aleluia com muita vontade.
E entende-se a conduzir pela esquerda?
Nossa senhora! Uma vez, quase compliquei a minha situação profissional. Dei carona [boleia] ao presidente do clube [Perth Glory] sem saber meter as mudanças na perfeição. Em vez de acelerar, fiz marcha-atrás. O meu empresário é que teve de explicar ao presidente que não fiz aquilo de propósito.
E os hábitos alimentares daí?
Posso dizer-lhe que não há feijão como o brasileiro. E no outro dia, ensinei os gringos a comer abacate. É com açúcar, e não com pão e presunto.
Quer isso dizer que o Amaral coveiro já é passado?
Eles interessam-se muito pelo meu passado, mas isso eu não conto não! [risos] Para vocês, que já sabem, não posso fugir à verdade! [mais risos] Trabalhei no cemitério e aí apanhei o maior susto da minha vida. Enquanto o meu chefe tratava de uma outra coisa qualquer, eu estava a pôr as pétalas de rosa em cima do morto, que estava com os braços cruzados em cima do peito. Aí, caiu uma pétala e eu baixei-me para apanhá-la. De repente, o braço do morto foi contra mim. Apanhei um susto. De morte, mesmo! Corri até chocar com o meu chefe e regressei intranquilamente ao local. Só aí percebi que a mão do morto caiu porque o corpo estava ligeiramente descaído. Mas foi um susto incrível! O futebol é bem mais tranquilo.
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