A selecção transformada num insecto

por João Almeida Moreira, Publicado em 07 de Setembro de 2009   
A metamorfose segundo Queiroz: mudou sistema, jogadores, posições. Agora precisa de um milagre
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"Gregor Samsa despertou uma manhã na sua cama de sonhos inquietos metamorfoseado num monstruoso insecto", escreveu Franz Kafka no início da obra "A Metamorfose", de 1915. Tomemos Carlos Queiroz por Franz Kafka e a selecção portuguesa por Gregor Samsa. O professor contratado por Gilberto Madaíl para fazer esquecer Luiz Felipe Scolari, em Julho de 2008, mudou tudo o que pôde desde que chegou, incluindo as próprias convicções. E a selecção, de ser humano recatado mas honrado, como Samsa, tornou-se num insecto de proporções monstruosas, nascido da imaginação do kafkiano Queiroz.

Antes do professor que um dia disse que era preciso "varrer a porcaria para fora da federação", Portugal ocupava o top ten do ranking FIFA. Atingira a final e as meias-finais das duas principais competições em que participara e tinha um grupo de jogadores que compunha a base da selecção para o bem ou para o mal. Hoje, a selecção é 17.a, atrás de EUA, Suíça ou Austrália, tem o apuramento para a África do Sul em sério risco e utilizou 38 jogadores, 13 dos quais em estreia, incluindo Gonçalo Brandão ou Eliseu - que nunca se impuseram no Belenenses - em apenas 13 jogos. Imagine uma equipa da Liga portuguesa a usar 38 atletas diferentes em 13 jornadas...

Surreal O mais recente exemplo das consequências da metamorfose que Queiroz promoveu aconteceu nos últimos dias e ao intervalo do jogo com a Dinamarca, mais especificamente. Na recta final da qualificação para o Mundial na África do Sul, o treinador resolveu mudar um sistema em uso desde o início do século na selecção: o 4x2x3x1. Fê-lo, supostamente, para melhor encaixar Liedson, que se habituou ao 4x4x2 em Alvalade, entre outras razões secundárias. Afinal, na Dinamarca o seleccionador jogou em 4x4x2 quando o sportinguista não estava em campo; e em 4x2x3x1 depois de ele entrar. Em 4x4x2 conseguiu chegar mais vezes à baliza do adversário mas faltou-lhe um finalizador. Em 4x2x3x1 demorou a reassumir o controlo e só marcou, de bola parada, nos instantes finais.

Incompreensível Foi só a enésima vez que Queiroz, o seleccionador já responsável pela não qualificação de Portugal para o Mundial dos EUA em 1994, mudou de rumo. Porque o actual técnico não se resume a implodir o que fez o antecessor; altera as decisões que ele próprio toma. Na baliza, começou por dar a titularidade a Quim, o vice de Ricardo na era Scolari, para depois substituir o actual titular do Benfica pelo bracarense Eduardo. Aliás, Quim passou de primeira escolha a, pelo menos, quarta, porque para a operação Dinamarca-Hungria, além do guarda-redes do Braga, foram chamados Beto (FC Porto) e Rui Patrício (Sporting).

A lateral-esquerda pertenceu a Antunes, Paulo Ferreira e Duda, fora outras experiências, e jogadores como Manuel Fernandes, Carlos Martins ou Boa Morte oscilaram entre titularidade e não chamada. Sendo que o extremo-esquerdo do West Ham chegou a ser utilizado à direita na milagrosa vitória (Bruno Alves aos 90+2') vitória de Portugal na Albânia - sairia ao intervalo, claro.

Aceitável O desvario de Queiroz só é compreensível à luz dos desequilíbrios de uma selecção que não pode recorrer ao mercado. Em Portugal, há centrais de qualidade de sobra, por isso o seleccionador subiu Pepe; não há laterais- -esquerdos de nível, por isso, inventou nova vida para Duda; e em situação de emergência, chamou o neoportuguês Liedson para ter golos.

Não se compreende é que o seleccionador continue a mudar de sistema, de posições e intérpretes como se ainda estivesse em fase de testes e não na recta final de um trajecto de dez jogos oficiais. Agora a Portugal resta vencer os três jogos que faltam (dois com a Hungria e um com Malta) e esperar por deslizes da Suécia, sendo que o único jogo difícil da selecção de Ibrahimovic será com uma Dinamarca, à partida, já apurada nessa altura. É preciso metamorfosear o destino mas isso já não está nas mãos de Carlos Queiroz.


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