Ofensas políticas
Escândalos da democracia: manifesto anti-Portas
por Gonçalo Venâncio, Publicado em 03 de Setembro de 2009
Carlos Candal incendiou as legislativas de 1995 com ataque a Portas e Pacheco Pereira
Agosto de 1995, Portugal prepara-se para eleições legislativas. A saída de cena de Cavaco Silva, depois de dez anos ao leme da nação, deixa o campo da sucessão completamente em aberto: a corrida pelo poder adivinhava-se dura, muito dura. Agora pense num distrito importante para a contabilidade eleitoral: Aveiro. Junte-lhe candidatos como Paulo Portas, a fazer a sua estreia como político pelo CDS, acabadinho de abandonar a direcção do acutilante "O Independente"; em defesa do legado cavaquista, Pacheco Pereira; e, pelos socialistas, Carlos Candal um histórico e controverso fundador do partido. A mistura foi explosiva. Portas detestava Pacheco e Pacheco odiava Portas. Candal não podia com os dois: "É o cumulo passarem a ser deputados por Aveiro gente de fora, estrangeiros, para aqui importados por Lisboa como comissários políticos para uma zona subdesenvolvida, ou tutores de indígenas carecidos de enquadramento", dizia.
As eleições estavam marcadas para dia 1 de Outubro, mas Candal não perdeu tempo e começou a disparar logo a meio do Verão. Portas era retratado como um "autoritariozinho" com "nostalgia do império" e Pacheco Pereira um "político atolambado e bacoco" que, obviamente, iria "apanhar uma abada no dia 1". E os motores ainda só estavam a aquecer. Sem poupar no seu "vernáculo aveirense" e de charuto em riste, Candal confessava-se: "Não quero ser cagão, mas o meu currículo político deixa a milhas de distância o de Paulo Portas e Pacheco Pereira." Pacheco que, para Candal, "acabou o curso com uma nota pataqueira", andava pelo distrito a "fazer uma barriga de água por ter percorrido 835 tascas e cafés a beber gasosas".
Pacheco e o PSD indignaram-se e o combate político amainou... por pouco tempo. Passado um mês, no dia 14 de Setembro, Candal incendeia a campanha e estoira com os esforços de Guterres em apresentar ao país um PS renovado, uma nova maioria. Em dez páginas, no que ficou conhecido como "Breve manifesto anti-Portas em português suave", Candal menospreza Portas, ridiculariza Pacheco e dispara sobre tudo o que mexe na campanha do CDS. "Fundamentalista e vaidoso", "inseguro", "elitista", "dissimulado", "bluff político" ou "garnisé cantante" fazem parte do catálogo de insultos. Ainda se podem acrescentar "jovem inseguro" e "dependente da mãezinha", ou um "produto acabado de certos meios intelectuais da capital que funcionam em circuito fechado."
As farpas tiveram o condão milagroso de juntar Portas e Pacheco do mesmo lado da barricada na condenação do ataque pessoal e na exigência da cabeça de Candal, ao PS.
No Largo do Rato, o manifesto caiu como uma bomba. Ninguém, nas estruturas nacionais ou distritais sequer sonhava com a iniciativa do aveirense. "Toda a gente está a dar o máximo na campanha e depois chega um tipo e estraga tudo", diz uma fonte socialista ao "Público", retratando o estado de espírito do estado maior guterrista: "Isto não é o actual PS", lamentava Jorge Coelho.
Num curto comunicado, António Guterres foi célere no controlo de danos. Pediu desculpas aos visados e retirou a confiança política ao dinossauro aveirense, esperando o seu afastamento voluntário das listas. Do ponto de vista legal, era a única saída possível mas Candal não recuava: "Era o que mais faltava!", retorquiu. A demarcação do PS foi total e até os panfletos que anunciavam o comício conjunto de Candal com Guterres para daí a uns dias foram destruídos.
Depois do choque e do silêncio inicial, Portas reagiu e prometeu a Candal "dois sopapos" ou umas boas "bengaladas à velha maneira republicana".
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