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A política que não vai em comícios

Publicado em 01 de Setembro de 2009   
Especialistas dizem que Ferreira Leite decide bem em não fazer comícios. "Não é o estilo dela"
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Nunca antes um partido com vocação de poder anunciou uma campanha sem um dos mais tradicionais instrumentos de campanha: os comícios. Ao resguardar-se do palco e dos discursos inflamados perante grandes concentrações de militantes e bandeiras, Ferreira Leite está a fazer história. "Os comícios são manifestações de força dos partidos. E optar por não fazer nenhum é algo inédito, não só em Portugal. Nem Obama, que apostou forte nas novas tecnologias, prescindiu dos comícios. Nem ele arriscou", refere Rui Oliveira e Costa, ex-dirigente do PS e responsável pela empresa de sondagens Eurosondagem. Os especialistas ouvidos pelo i concordam que a escolha assenta como uma luva na falta de perfil da líder do PSD para este tipo de evento. Mas ninguém arrisca em antever o resultado desta opção.

"Manuela Ferreira Leite não faz comícios simplesmente porque não fala bem, não é o estilo dela e não fica bem", opina Salvador da Cunha, director-geral da Lift Consulting. O ex-presidente da agência de publicidade Young&Rubicam, Albano Homem de Melo, concorda: "Não é alguém que entusiasme muito as pessoas, não é um Obama. Usa essa não-empatia a seu favor, para dizer: 'Não sou dada a comícios, não sou boa a falar em público, sou um animal não-político e estou aqui para dizer a verdade sem encenações.'"

Aguiar Falcão, director do Instituto de Pesquisa e Opinião de Mercado (IPOM), considera que o risco de deixar de fora os comícios é muito reduzido. "Ferreira Leite não perde nada, ou perde muito pouco". O feitio da líder - "é preciso um bom actor que puxe pela parte emotiva e Ferreira Leite não é uma boa actriz para esta encenação"- conjuga-se com o defeito deste meio.

"É um instrumento desadequado à realidade actual. As novas tecnologias permitem que o eleitor interaja. Nos comícios, a única interacção que podem ter é bater palmas", acrescenta Aguiar Falcão.

Mas é nos comícios que os partidos mostram a sua força. Ao optar por não mostrar força nenhuma, o PSD perde visibilidade, refere ainda Rui Oliveira e Costa. "Tal como as manifestações de rua, os comícios são uma forma de mostrar a capacidade de mobilização", sublinha. Optar por estes eventos também é arriscado quando ao resultado não mobiliza.

"O Bloco de Esquerda só agora arrisca espaços maiores, por exemplo. Tudo depende da capacidade do aparelho, da escolha dos espaços, da personalidade do líder" - entre fazer discursos para um espaço vazio e não fazer de todo, a escolha do PSD pode ser certeira. Mas se há coisa para a qual um comício não serve é para falar aos indecisos. "Não são para os indecisos, valem para os ultra-convencidos", acrescenta.

"São instrumentos para galvanizar os militantes, mas na última década mostraram que já não galvanizam a sociedade. As pessoas desconfiam das imagens dos comícios, sabem que as televisões podem esconder a ausência de pessoas", refere também Aguiar Falcão. Além disso, o PSD "não está propriamente apaixonado pela líder".

"Ferreira Leite diz que não liga muito à comunicação e às campanhas mas o que ela escolheu foi outra forma de comunicar e de passar a mensagem do 'ciclo de verdade'. No fundo, o que ela diz é que vai fazer uma não-campanha", argumenta Homem de Melo. A líder social-democrata "joga a contar com o desastre do PS, joga para receber o voto de protesto".

A confirmar-se esta teoria, nem sequer está a explorar bem as fraquezas do adversário, no entender de Salvador da Cunha. "O PSD poderia aproveitar o voto dos professores contra o governo, mas não o faz porque não está interessado, está-se nas tintas. Para ganhar esses votos, bastaria encontrar um compromisso que interessasse aos professores", sugere.

O especialista em imagem propõe à presidente do PSD que preencha o vazio dos comícios com marketing: fazendo mais arruadas, dando mais entrevistas aos media. "Mas se for às iniciativas diárias de campanha improvisando não se vai dar bem. As oportunidades só aparecerão se a preparação for a apropriada".


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