Médio Oriente
À grande e à Líbia: festa de milhões para celebrar Kadhafi
por Gonçalo Venâncio, Publicado em 01 de Setembro de 2009
Luís Amado e a Força Aérea portuguesa participam nas celebrações dos 40 anos da revolução do grande Al-Fateh
Esteja onde estiver em Trípoli, ninguém escapa ao olhar do "líder irmão". Por todo o lado há cartazes, telas de grandes dimensões, mosaicos e néones com a figura de Muammar Kadhafi. Com ou sem armas, com ou sem os densos óculos escuros, a pose do coronel tem sempre o mesmo traço: olhos posto no infinito. Quarenta anos depois de ter chegado ao poder, até parece que o pai da revolução está pronto para ser o grande timoneiro líbio por mais 40.
Decano dos líderes árabes e rei dos reis de África, nas palavras do próprio, Kadhafi e a Líbia começam hoje a celebrar quatro décadas de revolução. Está prometida a maior festa a que o continente africano já assistiu. "Nunca se viu nada como isto", garante Shane McCarthy, um dos dirigentes da empresa britânica responsável pela organização dos festejos. 2009 é um ano muito importante para a Líbia. E não apenas por marcar quatro décadas da revolução do grande Al-Fateh. A Líbia ocupa a presidência rotativa da União Africana e é membro não permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Com tanto palco mediático, Kadhafi quer que as celebrações tenham a grandiosidade de uns Jogos Olímpicos - foram contratados bailarinos de todo o mundo que, sob as ordens do francês Martin Arnaud, vão contar a história da Líbia em vários capítulos num espectáculo que vai demorar três horas - e nem faltam os recordes: a maior tenda do mundo e um palco com o tamanho de um campo de futebol. No deserto, preparam-se actuações nómadas de Touareg, há desfiles de 40 balões de ar quente e mais de mil camelos.
Em Trípoli, as estradas estão cortadas mas, nos céus, os caças da força aérea francesa e italiana já ensaiam os exercícios acrobáticos para a elite política africana esperada na Praça Verde.
Já se percebeu: num país rico em petróleo e gás natural, dinheiro não falta. Mas tanto espectáculo para quem? Em primeiro lugar, para consumo doméstico. Kadhafi quer sedimentar a sua posição interna. Mais do que isso, quer afirmar a Líbia no plano regional ao mesmo tempo que tenta fazer um "rebrand" da imagem do país na arena internacional.
Foram convidados líderes de todo o mundo mas as autoridades ainda não divulgaram a lista final de convidados. É previsível que 60 ou 70 aceitem o convite e entre eles estão Robert Mugabe e Omar el-Bashir, líderes do Zimbabué e do Sudão respectivamente, ódios de estimação da comunidade internacional. Hugo Chávez também não deverá faltar. Do clube europeu já se sabe: com a excepção do presidente da pequena ilha de Chipre, ninguém vai à festa de Kadhafi.
Portugal vai fazer-se representar por Luís Amado, ministro dos negócios estrangeiros, e pela Força Aérea. José Luís Rodriguez Zapatero não vai (estará Miguel Angel Moratinos, chefe da diplomacia de Madrid), Nicolas Sarkozy também não. Até Vladimir Putin optou por ficar em casa. As ausências provam que a Líbia é um terreno diplomático minado.
Depois de ter sido considerado um estado pária e um dos principais patrocinadores do terrorismo internacional, a Líbia renunciou ao armamento nuclear e abandonou o eixo do mal. Mas a reabilitação da sua imagem sofreu um rude golpe quando recebeu como herói Abdelbaset al-Megrahi, o bombista de Lockerbie. A Líbia tem mostrado que já não é um inimigo. Mas ainda está longe de ser um parceiro fiável.
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