A história tem todas as componentes de um policial: um elenco que inclui antigos espiões e militares franceses, um ciclista campeão, militantes da Greenpeace e um juiz obstinado cuja investigação o leva desde um laboratório de dopagem desportiva fora de Paris até uma prisão marroquina e algumas empresas francesas de topo.
Com contornos de episódios típicos de um folhetim, as revelações têm vindo à tona desde Março. E, embora o clímax já tenha ocorrido há meses, a história deixa antever pormenores sombrios sobre a obtenção daquilo a que as empresas chamam informações estratégicas.
"Há muito mais a acontecer diariamente numa empresa do que aquilo que seria possível divulgar à polícia", assegura Christian Harbulot, director da École de Guerre Économique, de Paris. As empresas visadas incluem gigantes da segurança, como a Kroll, e o que Harbulot designa por "pequenos operadores", que vão de ex-agentes secretos a hackers.
O caso que se tem desenrolado em França envolve um misto de hackers e algumas das maiores empresas do país, incluindo a EDF (Électricité de France), a maior operadora de centrais nucleares francesa, e a Vivendi, a gigante das telecomunicações.
Ciclismo inicia processo De acordo com um dossier compilado por Thomas Cassuto, o juiz de instrução do processo, os investigadores tropeçaram no caso no seguimento de um escândalo de dopagem no Tour de France de 2006.
Nesse Verão, foi retirado o título ao ciclista norte-americano Floyd Landis, depois de as suas análises terem acusado altos níveis de testosterona. Em Novembro de 2006, a agência antidopagem francesa apresentou uma queixa em tribunal, alegando que documentos confidenciais relacionados com as análises de Landis tinham sido roubados e enviados aos órgãos de comunicação social e a outros laboratórios.
Segundo os técnicos do laboratório, os documentos em questão tinham sido alterados, aparentemente numa tentativa de os desacreditarem, ao lançarem dúvidas sobre o manuseamento das amostras para teste. Os investigadores concluíram que, nesse sentido, tinha sido enviada uma mensagem de correio electrónico de um computador com o endereço de IP de Arnie Baker, o treinador de Landis.
Uma pesquisa aos computadores do laboratório, situado no subúrbio parisiense de Chatenay-Malabry, revelou um cavalo de Tróia, ou seja, um programa que permite a transferência remota de ficheiros por terceiros.
Não surgiram provas que ligassem nem Landis nem Baker à intrusão, tendo ambos negado qualquer participação no assunto. No entanto, serviram-se dos documentos na tentativa infrutífera de verem revogada a suspensão de Landis.
A pista, detectada por uma unidade especial do Ministério do Interior francês, conduziu a um especialista informático chamado Alain Quiros, que acabou por ser apanhado em Mohammedia (Marrocos). Sob interrogatório, Quiros começou por negar qualquer conhecimento do roubo, mas acabou por admitir mais tarde que lhe tinham pago entre 2800 a 4000 dólares (entre 1950 e 2785 euros) para penetrar nos computadores do laboratório de análises. E identificou Thierry Lorho, chefe da Kargus Consultants, uma empresa de recolha de dados em Paris, como estando por trás do assalto informático.
Depois, as coisas complicaram-se. Ao analisarem o computador de Quiros, as autoridades encontraram uma cópia do disco rígido de Yannick Jadot, ex- -director de campanha da Greenpeace France, bem como do de Frederik-Karel Canoy, advogado e activista-accionista do grupo.
Lorho, ex-agente secreto francês, disse a responsáveis franceses que outro homem, Jean-François Dominguez, lhe tinha pago pelos relatórios do laboratório. Ambos estão sob investigação. Lorho também confessou ter recolhido dados sobre a Greenpeace por conta da Électricité de France, que pretendia informações sobre militantes antinucleares.
Lorho disse que os seus contactos na EDF estavam "perfeitamente cientes" da intrusão informática.
A EDF negou qualquer conhecimento sobre o roubo e apresentou-se como vítima dos actos ilegais perpetrados pela Kargus Consultants. Mas Cassuto, que retomou a investigação em Abril de 2008, declarou que a EDF era uma "testemunha assistida", a um passo de ser constituída arguida. Alexis Gublin, advogado que representa a EDF, disse que a empresa estava a cooperar com a investigação.
Através dos respectivos advogados, Quiros, Dominguez e Lorho recusaram-se a comentar.
A espionagem empresarial não é uma novidade. Nos meados da década de 1960, a General Motors serviu-se de detectives privados para descobrir informações sobre Ralph Nader, o advogado dos consumidores, quando este começou a criticar o historial de segurança da indústria automóvel. Nos últimos dois anos, algumas das maiores empresas alemãs, incluindo a Deutsche Telekom e o Deutsche Bank, foram apanhadas a pisar a linha no que respeita a vigilância.
A investigação da EDF, que é detida em 85% pelo Estado francês, tocou num nervo sensível em França, cujos agentes secretos bombardearam e afundaram, em 1985, o navio "Rainbow Warrior" da Greenpeace, em Auckland (Nova Zelândia), do que resultou a morte de um fotógrafo. Mas nenhuma prova aponta para que o governo francês tivesse conhecimento ou estivesse envolvido na intrusão informática.
Numa entrevista ao website de recolha de informações Lerenseignement.com, Lorho afirmou que assumia "inteira responsabilidade" pela intrusão no computador da Greenpeace, mas acrescentou que "gostaria de ver a EDF, que patrocinou a operação, assumir a sua quota-parte de responsabilidade".
A 10 de Abril, a Électricité de France garantia ter terminado a relação com a Kargus Consultants e ter temporariamente retirado dois empregados de segurança que tinham lidado com essa firma. Os ditos empregados - Pierre-Paul François, engenheiro de protecção de websites e ex-polícia, e o seu superior, Pascal Durieux, director de segurança e ex-almirante da marinha francesa - estão a ser investigados por Cassuto. Ambos protestam a sua inocência no caso.
A EDF argumentou a favor da necessidade de vigiar os grupos de pressão.
"É importante sabermos, por exemplo, se este ou aquele grupo é radical ou se é respeitador da lei", disse Jean-Marc Sabathe, o director de segurança da empresa em Abril, numa entrevista ao Le Monde. "Mas não precisamos de pagar a hackers para sabermos isso." Entretanto, a investigação prossegue.
No caso do laboratório de dopagem, Dominguez, que a comunicação social francesa afirma ser um fotógrafo com ligações aos serviços secretos franceses, disse aos investigadores que só tinha agido como intermediário, passando os dados que recebia da Kargus a outro homem, que ainda não foi encontrado.
Cassuto intimou Landis e Baker a estarem presentes em Paris, em Maio, para serem interrogados. Mas nem um nem outro compareceram à audiência. Landis não respondeu aos pedidos de comentários através da Team Ouch, a sua nova equipa de ciclistas. Mas em Novembro de 2006, quando vieram à tona os rumores sobre a intrusão informática, garantiu à Cycling News: "Quaisquer afirmações que visem atribuir a autoria dessas acções a mim próprio ou à minha equipa de defesa não têm qualquer fundamento. São falsas, irresponsáveis e representam mais um exemplo de difamação."
Numa recente mensagem de correio electrónico, Baker negou qualquer envolvimento na intrusão informática.
Desde 2002, Canoy, o activista-accionista, apresentou 13 queixas em tribunal contra a Vivendi, que respondeu com duas, segundo o porta-voz da operadora de telecomunicações, Antoine Lefort.
Harbulot, o especialista em obtenção de informações económicas confidenciais, disse que o mais curioso do caso é imaginar por que razão uma empresa como a EDF se envolveria com "esse tipo de gente".
"Todas as necessidades de segurança da EDF deveriam estar a cargo do Estado, porque é uma empresa estrategicamente importante", disse.




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