Entrevista

"O maior erro de Sócrates foi não ter afastado a ministra da Educação"

por Rosa Ramos, Publicado em 31 de Agosto de 2009   
Histórico socialista, Edmundo Pedro avisa que "o PS não está bem" mas que Sócrates é "acessível"
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Tem 90 anos. Consulta o email todos os dias, tem a carta de condução actualizada e, para onde quer que vá, leva um bloco de notas "para apontar memórias". Edmundo Pedro faz parte da comissão política do PS - para a qual entrou no último congresso - e prepara-se para lançar o segundo volume da sua biografia. Estava a escrever sobre o assalto ao quartel de Beja poucos minutos antes de receber o i. Diz que a sua vida é uma "grande história". É casado há 54 anos e tem cinco netos e três bisnetos. Não tem papas na língua com José Sócrates e garante que esta não é a democracia com que sonhou quando se dedicou à luta antifascista. Com uma simplicidade invulgar, fala da fundação do PS e dos problemas que hoje o afectam, dos nove anos no Tarrafal e das eleições que se avizinham. 

 
Foi eleito, recentemente, membro da comissão política do PS. Porque é que aceitou, agora, essa responsabilidade?

Estive no último congresso do partido, em Espinho, e fui eleito numa moção – que nem era a de José Sócrates. Dada a minha idade, tinha assente que não me queria envolver demasiado. Mas, nesse dia, disse a José Sócrates algumas coisas que tinham de ser ditas e que ninguém tem coragem para lhe dizer. A minha intervenção, mesmo não sendo a dele, fez levantar todas as pessoas que estavam na sala, porque disse algumas coisas sobre o PS que, julgo, vão de encontro àquilo que os militantes sabem, conhecem e sentem. Porém, sempre deixei claro que não queria ser eleito para nenhum cargo. Tanto assim, que não fui eleito para a comissão nacional. Depois da eleição, alguns amigos disseram-me que eu tinha de integrar a comissão política por ter coragem de dizer determinadas coisas a José Sócrates e foi por isso que acabei por aceitar.

Assim sendo, que mensagem pretende passar a José Sócrates?
Devo dizer que apoio José Sócrates, apesar de lhe fazer algumas críticas. Só que não vejo nenhuma alternativa consistente.

Porquê?
Bem… tem que haver alguma alternativa. Há sempre. Mas por enquanto não vejo nenhuma. Por isso, aceitei um convite que me fizeram há dias e faço parte da comissão de honra.

Há eleições à porta. Acredita na possibilidade do PS conseguir uma maioria absoluta?
A minha experiência diz-me que é muito difícil acreditar nisso. No entanto, acredito que o PS vai conseguir uma grande vantagem. As pessoas percebem que as alternativas não o são, verdadeiramente. E há o perigo de se cair numa situação de ingovernabilidade, sobretudo em tempos difíceis como os que se vivem. E essa ingovernabilidade é um perigo real, porque temos uma extrema-esquerda que conseguiu 20% dos votos. É um caso sério. Creio que as pessoas percebem isso e vão voltar a eleger o PS. Vamos ser eleitos e convidados a formar governo. O Ferro Rodrigues disse, há dias, que Sócrates deve convidar o Bloco de Esquerda e o PC – sabendo antecipadamente que vão recusar. Eu concordo. São partidos que só querem contestar, mas deve-se consultá-los. Já um acordo com o CDS é de excluir, porque iria dividir o partido. Já com o PSD, só em último caso. O bloco central é uma solução a evitar. Mas há uma grande incógnita sobre o que se irá passar.

No que diz respeito às presidenciais, Manuel Alegre deve ser o nome do PS?
Se se tratar de um confronto com Cavaco Silva, sim. Sou amigo de Manuel Alegre, embora a dada altura ele tenha seguido um caminho que eu deixei de acompanhar. Ele subordina muito as coisas a um apoio eventual para as eleições presidenciais e eu não gosto disso. Não aprecio esses jogos. Há tempos, ele deu-me a sua palavra de que não queria disputar as presidenciais, mas estou convencido de que quer. Mas não digo que não dê um bom presidente: é um homem culto e com experiência.

Teve sempre uma voz crítica em relação ao ambiente por vezes pouco democrático que se vive dentro dos partidos. Continua a acreditar que existe alguma “asfixia”?

Sim. Ainda no último congresso critiquei, precisamente, o carneirismo que existe e a falta de valores. Isso acontece em todos os partidos, é certo. Mas a mim interessa-me o que acontece no meu. Nesse dia, falei com José Sócrates e perguntei-lhe como é que ele estava tão certo de que o partido vai bem. Eu até acredito que ele pense isso, mas não vai às secções. Como pode, então, ter a certeza disso? Perguntei-lhe como formou essa opinião, se foi através das pessoas que o rodeiam. Mas se essas pessoas também não vão às secções! Limitam-se a consultar os secretários e para eles é tudo cor-de-rosa. Mas não é verdade. Há tempos, estive em Badajoz e percebi a lógica de funcionamento de uma secção. É completamente diferente da nossa. A minha secção, uma das maiores de Lisboa, por exemplo, é virtual. Não temos sede. Ora é na Avenida de Roma, ora na Casa de Tomar. Em Espanha, as sedes existem verdadeiramente e estão abertas o dia inteiro. São grandes centros de debate político e cultural onde são admitidos simpatizantes e se faz a ligação entre o partido e as pessoas. A minha proposta é que em vez das 12 ou 13 secções que existem em Lisboa passem a existir somente quatro grandes secções.

Disse que o PS não está bem. Porquê?

Desde logo, por causa da estrutura de funcionamento de que falei. Mas, de resto, neste momento o ambiente é de mobilização. Há muita gente no PS a criticar José Sócrates, mas todos percebem que o mais importante é a vitória do partido.

E que balanço faz dos últimos quatro anos de governação?

Acredito que nenhum governo, desde o 25 de Abril, esteve tão preocupado com as questões sociais como este. Fez-se muita coisa, desde o ensino pré-escolar às matérias ligadas à terceira idade e à Saúde. Mesmo no campo da Educação, apesar da contestação. As reformas que a ministra quis implementar são, a meu ver, correctas. Só que ela não soube conduzir as coisas no plano político. Foi completamente inábil. As propostas eram bem elaboradas e correspondiam às necessidades, mas a sociedade portuguesa é muito corporativizada, vive de interesses de grupos que têm muita força.

José Sócrates errou em algum momento?

Há sempre erros. Mas julgo que o maior foi não ter afastado e substituído a ministra da Educação. Ela tinha razão, mas a política foi desastrosa. José Sócrates evita sempre entrar no plano das substituições, mas neste caso devia tê-lo feito. Mandei-lhe um recado, ainda não há muito tempo, nesse sentido. Também lhe mandei dizer que não deve insistir no facto do PSD se recusar, agora, a apoiar propostas que fez há sete ou oito anos. É um argumento muito inconsistente, porque os contextos mudam. Há sete ou oito anos a situação era completamente diferente da actual. Mandei-lhe, por isso, dizer que deve ir pela positiva e explicar aos portugueses o que é que o leva a insistir nestas grandes obras públicas. Apesar de – e ele já interiorizou isso – estarmos perante uma fase em que não vai dar para aplicar grandes dinheiros públicos. Será, antes, uma fase propícia à realização de grandes estudos. De uma maneira geral, penso que tem havido uma má gestão da imagem. Mesmo assim, o balanço é positivo. Temos importantes clusters a nascer – uma nova geração de empresas que exportam tecnologia, o que é uma coisa nova. Está a acontecer uma alteração na estrutura produtiva do país. Em Espanha, essa alteração foi feita há alguns anos, o que levou a uma taxa de desemprego da ordem dos 20%. Os números foram, depois, recuperados. Estes momentos de reestruturação industrial são sempre muito difíceis de ultrapassar, especialmente se forem acompanhados por uma crise geral.

E como é o contacto com Sócrates?

Na verdade, ele é uma pessoa muito fácil de se lidar e muito acessível.

Esta é a democracia com que sonhava nos anos em que se dedicou à luta antifascista?

Não, não é. Há muita gente, como o Vasco Lourenço, que dizem que tudo isto foi uma decepção. Mas eu acredito que o povo português foi até onde podia ir. Não é a vanguarda que faz aquilo que o povo não é capaz de fazer. Nós fizemos a experiência. Essa vanguarda está, agora, integrada sobretudo à esquerda do PS, em partidos – como o Bloco de Esquerda e o PC – puramente especulativos, que não têm potencial de organização e cooperação. Não podíamos ir mais longe e deu-se um desastre imenso. A democracia é o pior dos regimes, mas todos os outros são ainda piores.

Está a escrever um segundo livro de memórias. Quando é que será lançado?

Estou concentrado para conseguir tê-lo pronto no dia em que fizer 91 anos, a 8 de Novembro. Este segundo volume vai ser um relato do que vivi até ao 25 de Abril. A primeira parte incide muito sobre o tempo em que estive no Tarrafal. Passados nove anos de prisão, cheguei a Portugal já com 27 anos. Vinha tuberculoso e sem emprego. Na altura, correspondia-me com uma prima que foi criada comigo e que estudava na Faculdade de Letras com o Mário Soares e a Maria Barroso. Havia uma espécie de namoro, mas quando regressei a minha tia mandou-me logo um recado: eu não era um bom partido e não podia oferecer nada à minha prima a não ser esperanças. Por isso, nunca lhe cheguei a falar do meu interesse. Foram tempos difíceis.

Depois arranjou emprego?

Sim. Como se sabe, eu não sou licenciado. Tenho apenas um curso industrial. Fui um bom aluno de desenho (ainda hoje gosto de pintar e creio que até tenho algum jeito) e no Tarrafal aprendi línguas.  Quando cheguei a Portugal fiz saber que estava à procura de emprego. Naquele tempo, os círculos anti-fascistas reuniam-se nos cafés da Baixa. Acabei por conseguir trabalho como desenhador de construção civil, graças ao engenheiro Luís da Fonseca (na altura director do Porto de Setúbal e ligado à construção da base aérea do Montijo), que me disse que havia um lugar. Eu não percebia nada de construção civil, mas deitei mãos à obra. Comprei uma prancheta, vários esquadros e um Tratado de desenho de construção civil e durante duas semanas, de dia e de noite, apliquei-me. Concorri ao lugar e fiquei, durante um ano. Só vinha a Lisboa aos fins-de-semana. Foi uma espécie de segunda deportação, mas quando vinha para casa da minha tia continuava a frequentar as tertúlias da Baixa. Mais tarde consegui um lugar na Federação de Futebol como correspondente de línguas, recomendado pelo Vicente de Melo. Passado algum tempo, a gestão mudou e soube-se que eu tinha estado quase dez anos no Tarrafal. Dizia-se que eu era perigoso e eu percebi que a minha carreira ali estava terminada. Mais tarde, fiz a correspondência da Lusofarma e acabei por ficar ligado ao Instituto Electrónico Português. Tudo no espaço de dez anos.

Mas a sua tia queria que fosse engenheiro naval...

E era o que viria a ser se não fosse preso. Ir para a Escola Naval seria a ordem natural das coisas. Cortaram-me a carreira quando fui preso pela primeira vez.

Aos 13 anos já era militante da Juventude Comunista. Como é que surgiu esse envolvimento?

O meu pai estava deportado na Guiné desde 1929 e eu cresci, entre os 10 e os 13 anos, a ouvir falar dele. Para mim, era um herói. Alguém que defendia o bem contra o mal. É curioso... era uma dicotomia tão simples! No meu imaginário, o meu pai defendia o bem, oponde-se aos malandros que defendiam as injustiças. No início era um pensamento muito primário, que depois fui elaborando com o tempo. Depois, entrei no arsenal, onde conheci um almirante. Eu era um miúdo simpático e ele meteu-me na Juventude Comunista. Mais tarde, já em 1933, o Bento Gonçalves regressou da deportação e imprimiu uma grande dinâmica no partido. Era um homem culto, simples, um profissional dos pés à cabeça. Mais tarde, estivemos juntos no Tarrafal, onde ele fazia invenções extraordinárias para a época, como máquinas de cortar tabaco ou uma instalação para produzir gelo. Era genial.

Aos 17 anos vai como que inaugurar o Tarrafal...

Sim, fui logo no primeiro ano, com Bento Gonçalves. Foram nove anos em que fiz de tudo. Desde cavar a construir estradas. Ajudava, também, o Bento Gonçalves na serralharia, enquanto ele foi vivo. Gosto de me lembrar desses tempos e viu lá muitas vezes, quase todos os anos. 

Mais tarde, em 1961, participou no assalto ao quartel de Beja…

Fizemos três tentativas - éramos teimosos! Na primeira vez, na noite de 1 para 2 de Dezembro de 1961, apareceram 30 pessoas, num universo de 60 ou 70 previstas. Considerámos que não havia capacidade para levar a cabo o assalto, até porque só havia uma pistola. Tentámos novamente de 10 para 11 de Dezembro, mas  havia pouca gente. Entretanto, trouxe o Manuel Serra para casa, escondido. Ele prometeu-me ajuda e uma melhor coordenação do assalto. Por isso, na última tentativa, na noite de 31 de Dezembro de 1961 para 1 de Janeiro de 1962 já contámos com a colaboração dos oficiais. O Jaime Oliveira, o Pedro Marques e o Varela Gomes entraram em contacto com outros três oficiais do quartel. Um deles era o comandante da companhia de segurança, o major Vasconcelos Pestana e os tenentes Alexandre Hipólito e Brissos de Carvalho. Penso que as coisas podiam ter corrido melhor se não fosse a precipitação dos oficiais. No fim de tudo, a experiência rendeu quatro anos de cadeia. Foi muito difícil. Eu já estava casado, já tinha as minhas três filhas. A minha mulher teve de trabalhar muito. Era uma grande especialista de confecções e tinha uma pequena empresa muito bem gerida e que conseguiu manter durante o tempo em que estive preso. Já os meus negócios perderam-se.

É quando sai da prisão, já em 1973, que se envolve no Partido Socialista?

No início de Setembro tinha ido com a minha mulher a Paris e parámos no aeroporto de Barajas, em Madrid. Encontrámos o Mário Soares, que tinha  vindo de estar com o Salvador Allende, no Chile. Ele, naturalmente, estava muito mais informado do que eu sobre a vida politica e contou-me que o regime estava por um fio e que era preciso criar um grande partido socialista porque o Partido Comunista era pequeno, embora tivesse uma grande capacidade de mobilização e organização. A seguir ao 25 de Abril, fui eleito para a comissão nacional. Depois, para a comissão politica, para o secretariado nacional e cheguei a deputado.


Poucos anos depois, viu-se envolvido em acusações de contrabando de armas e electrodomésticos. Como é que isso aconteceu?

Essa é uma grande história. Eu era presidente da RTP, membro do secretariado do PS e deputado. Depois do 25 de Novembro de 1975, o partido recebeu várias armas das Forças Armadas. Os oficiais que no-las entregaram nem nos disseram  para as devolvermos – apenas não podíamos revelar a sua origem e deixar que fossem apreendidas. A minha sobrinha, que estava a acabar Direito, telefonou-me a dizer que a Guarda Fiscal estava na empresa – que nem sequer comercializava electrodomésticos, mas material electrónico – de Almada à qual eu já não estava ligado. Só que tinha pedido para me deixarem guardar umas coisas num dos armazéns. Só eu sabia o que era. Só que quando a minha sobrinha me telefonou a primeira coisa que fiz foi ir ver das armas e tirá-las de lá. A minha sobrinha quis ir comigo. Além das armas, estavam guardados nos armazém uns gira-discos que tinham sido devolvidos por uma empresa e minha sobrinha teimou que os queria levar para a loja. A ideia era ir devolver as armas e depois ir deixar os gira-discos. Tínhamos o carro à porta e carregámos o material. Eu não vi nada, mas pelos vistos a Guarda Fiscal estava escondida a espiar-nos, segundo confirma o relatório que eles fizeram na altura. O que não coerente: quando chegaram à firma às nove da manhã traziam um mandato do juiz. Mas não o quiseram usar. Preferiram esconder-se à minha espera. Nunca soube como é que eles souberam que as armas lá estavam. Eu assumi de imediato a responsabilidade pessoal pelas armas. O partido tomou uma decisão rápida. O comunicado que emitiu, nessa manhã, a dizer que não sabia de nada foi desagradável. Mas eu percebo. O que foi grave foi o comunicado das Forças Armadas em que o Ramalho Eanes mente e diz que as armas nunca tinham sido entregues ao PS, mas a mim. Ele mentiu. E a origem da minha desgraça esteve nessa mentira.

Onde é que foi buscar as armas?

A Cascais. Fui numa carrinha Wolkswagen com um grupo de militantes do partido. Levávamos uma senha para os oficiais do quartel. Quando chegámos eles conduziram-nos, de jipe, até uma vivenda em Bicesse, onde nos entregaram tudo. Não nos pediram para que as devolvêssemos, só insistiram para que não as deixássemos apanhar para não serem comprometidos. A vivenda, creio, era do sargento-cozinheiro Belo. Quando este grupo soube do comunicado do partido, elaborado pelo Mário Soares, em que dizia que o partido não sabia nada sobre as armas, falaram com ele. Mas eu já estava preso em Caxias. O PS não podia dar o dito pelo não dito. Eu assumi as responsabilidades e nunca, mas nunca falei do nome de ninguém. Mantive essa atitude durante todo o processo – o que me dificultou mais a vida – mas a minha experiência de resistência tinha-me ensinado que um homem nunca denuncia os seus companheiros. Ainda hoje as pessoas se lembram de mim por causa desta história, desta conspiração. E nem havia electrodomésticos nenhuns! Foi uma invenção enorme! No último congresso do PS, um tipo de Almada veio falar comigo e perguntou-me se eu não tive, em tempos, um casa de electrodomésticos em Almada. Não escondo: às vezes chateia ser recordado por algo que não fiz. Há quatro ou cinco anos, o Eanes veio pedir-me perdão durante um almoço. Quando eu estive preso, o Mário Soares propôs-lhe uma ordem para a minha libertação e ele recusou. Falámos nisso e ele disse que se fosse hoje me tinha solto. Mas enfim. Agora já não serve de nada. Na altura, tinha sido uma contribuição no sentido de limpar o meu nome, que ficou totalmente destruído.

Ainda assim, tinha consigo umas pistolas que não eram usadas pelas Forças Armadas...

Eu não sabia que as duas pistolas estavam nas caixas. Aquilo foi embalado na Federação da Área Urbana de Lisboa (FAUL), em São Pedro de Alcântara, e eu pouco interferi nesse processo. O PS tinha comprado umas armas a um malandro, um segurança profissional muito conhecido do Parque Mayer. Comprou sete pistolas dessas para dar aos seguranças dos dirigentes do partido. Pelos vistos, decidiram-me dar duas a mim. Aliás, lembro-me de me ter oposto à decisão do PS contratar seguranças profissional para proteger os dirigentes. Estive em desacordo com o Manuel Alegre nesse ponto. Eu achava que o partido tinha elementos disponíveis para fazer a segurança e acreditava que a contratação podia, até, ser atentatória da própria segurança do PS.

Portanto, ter-se-á tratado de uma conspiração?

Claramente. E 30 anos depois ainda não sei de onde partiu. Sei que foi de um dos extremos – ou da direita ou do PCP. Mas a cabala começou a ser organizada na Policia Judiciária, disso não tenho dúvidas. Até porque, uma semana antes do escândalo, o jornal “Expresso” publicou uma série de acusações contra mim – desde falência fraudulentas a cheques carecas que nunca existiram. A Judiciária mandou um ofício ao Almeida Santos a acusar-me dessas coisas. Ele e o Mário Soares reuniram e chamaram-me. Eu expliquei que nada daquilo era verdade e provei. O Almeida Santos disse que o melhor seria dar uma conferencia de imprensa e mostrar as provas. Mas não tive tempo. O escândalo das armas rebentou de imediato. Eu tinha muito poder. Naquela altura, ser presidente da televisão era uma coisa muito importante porque se controlava a informação. Apesar de eu ter procurado fazer uma gestão impecável e isenta.

Isso foi possível, dada as sua ligação ao PS?

Quando fui nomeado, a primeira coisa que fiz foi convocar uma reunião com todos os jornalistas nos estúdios do Lumiar, em que fiz questão de deixar claro que  não era comissário politico do PS. Entendia a televisão como um universo de informação rigorosa. Com espírito de missão. O representante dos jornalistas disse que confiavam e mim e penso que nunca os desiludi. O meu único erro talvez tenha sido contratar o José Eduardo Moniz. Eu e o Raul Junqueiro éramos os representantes do PS e quisemos ficar, propositadamente, em minoria, para garantir a pluralidade. Na noite a seguir à nomeação, o José Eduardo Moniz apresentou a minha intervenção dizendo que eu tinha assumido que ia partidarizar a RTP. Fiquei magoado. Uma vez, o Teófilo Carvalho dos Santos – já depois de ter deixado de ser presidente da Assembleia da República – disse-me que eu despertei muitas invejas por ter subido muito depressa. Penso muito nisso. Mas eu nunca quis subir. As coisas foram acontecendo.

Em algum momento pensou em voltar atrás?

Não. Toda a minha vida foi um percurso muito natural.

Mas arrepende-se de alguma coisa?

Não. Só lamento profundamente a maneira como fui tratado pela sociedade portuguesa. Fui profundamente injustiçado. Fui jovem comunista e tenho muito orgulho nisso. Por isso é que fui deportado para o Tarrafal. Entrei para o partido antes de Álvaro Cunhal e fomos os dois eleitos para o comité central na mesma altura, eu tinha 16 anos. Ele 21. A minha vida é uma longa história e não me arrependo de nada.

Qual foi o momento mais importante dessa grande história?

O 25 de Abril. Sem dúvida.



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