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Agarrados à internet: porque é que eles preferem uma vida virtual?

por Joana Stichini Vilela, Publicado em 29 de Agosto de 2009   
Noites sem dormir, meses sem sair de casa, namoros virtuais: as histórias de três jogadores, na semana em que "Second Skin" saiu em DVD
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Morena e de olhos azuis, Sofia Ramos, de 23 anos, passava por bodyboarder. Na verdade surfa, mas é pelos jogos de roleplaying. No World of Warcraft (WoW) é Eriene, uma "night elf" (como os elfos de "O Senhor dos Anéis") do 68º de 80 níveis. Para aqui chegar precisou de 80 horas, indica o programa. Nada, se comparado com as 1177 horas e 26 minutos que passou online para chegar ao nível 71 com Gifted Night, a primeira das nove personagens que criou. "Isto assusta-me. Umas horas aqui, outras ali, e de repente são 49 dias da minha vida", admite, para depois reconsiderar, "no meu caso compensou. Totalmente".

A guerreira Esta estudante de psicologia juntou-se aos 11 milhões e meio de pessoas que jogam WoW em Fevereiro de 2007, por intermédio do namorado. Hoje, podia ser uma das personagens do documentário "Second Skin" (ver vídeo). Quando acabou a relação, passou a desabafar com um jogador da Dinamarca. Durante três meses, só saiu de casa para ir à faculdade. Mesmo aí levava o portátil. Prendia-a o social, embora no chat só se possa falar do jogo. "Basta ver alguém com uma armadura, para perguntar 'onde arranjaste isso?'." Cruzou-se com personagens que falavam do WoW como se fosse o mundo real. Outras tinham destruído o casamento. "É doentio", diz. E quando conheceu portugueses nas "jantas", teve algumas surpresas. "Um amigo meu não se cala online mas é capaz de passar um jantar inteiro calado."

Em Dezembro encontrou-se com o tal dinamarquês em Londres e começaram a namorar. Ele tem mais 14 anos que ela ("achava que eu era mais velha") e já deixou o jogo. Sofia passou a controlar-se, sobretudo por causa das notas. "Olhei para a pauta e pensei, '10 [valores] não dá'". No liceu tinha média de 14. Desforrou-se nas férias no Algarve, a jogar 10 horas por dia. "Não gosto de praia", justifica. "Prefiro fazer uma coisa dinâmica, em que o cérebro se movimenta".

A pioneira A culpa foi dos filhos, aponta Maria Ruivo, de 51 anos. Disseram-lhe: "Olha, mamã, um jogo como tu gostas. Dão-te uma vila pequena para cresceres". A funcionária do Ministério da Justiça, de baixa depois de um acidente de trabalho, nem hesitou. Na companhia dos cinco gatos, atacou o jogo de estratégia online Tribal Wars. De início, fez directas e era normal acordar de madrugada para jogar. O marido, de 52 anos, não se importava. Aliás, fazia o mesmo. Só os amigos gozavam. "Acham que sou maluca", brinca.

A ser loucura não é de agora. Quando os primeiros Spektrum chegaram a Portugal, comprou um. Jogava horas perdidas com o filho. Ao fim-de-semana ainda faz grandes jogatanas com ele e com a nora. "Divertimo-nos imenso. Temos um router. Eu faço o jantar e depois ficamos aqui até às seis, sete da manhã."

No Tribal Wars, passados três anos, paga 19 euros pela assinatura premium e é uma dos sete resistentes da tribo. "Estamos numa fase muito avançada. Já é mais política." Esteve várias vezes para deixar o jogo. "Mas depois penso, 'está aí o pessoal... vou aguentar mais uns tempos'." É a diferença dos jogos online: há pessoas do lado de lá. Quando "a coisa fica demasiado estática", a decisão é fácil: "Vamos lá fazer uma guerra."

O campeão Óscar Santos, de 32 anos, chega num Mazda descapotável. O professor de informática esteve de férias no Algarve. E este ano não teve de arranjar um babysitter para o Travian, o jogo de estratégia militar que durante um ano quase não o deixou dormir. Entre Janeiro de 2008 e Fevereiro de 2009, OscSan, como era conhecido, foi o melhor dos 27 mil jogadores com quem competiu.

Fez centenas de cálculos em tabelas de Excel, mas a estratégia era simples: construir muitas aldeias e atacar sempre que possível. De preferência quando o adversário menos esperava. "Pus várias vezes o despertador para as quatro da manhã", conta. Isto quando conseguia dormir. Ao todo, deve ter feito umas 15 directas. "O problema é que não calha quando queres. Pode ser uma terça ou quarta-feira."

O Travian não pára. Tem de se estar atento 24 horas por dia. "A grande motivação é que estás a jogar com pessoas reais. Nunca sabes como vão reagir." Por isso é que deixou de ir passar fins-de-semana fora com a namorada e de se deitar à mesma hora que ela. Na passagem de ano levou o portátil. Deixou de ler e até de ver os jogos do Benfica. Ao todo, gastou quase 1000 euros em "ouro" para alimentar as tropas. E chegou a receber ameaças de morte. "Há quem não distinga entre jogo e realidade", comenta. "Eu ria-me. Uma vez, no Natal, disse a um, 'agora a sério, tu não estás bem. Vai procurar ajuda'."

Quando acabou em primeiro, decidiu não jogar mais. "Na primeira semana sentia-me de férias. Não tinha preocupações", lembra. "Depois comecei a sentir um vazio." Um parceiro desafiou-o a entrar numa versão do Travian três vezes mais rápida. Ele alinhou. Passado um mês estava à frente - e de rastos. "Não dormia. Era de uma intensidade absurda." Desistiu e nunca mais quis ouvir falar de jogos. "Aquilo vicia. E não te apercebes." Ainda assim, não se arrepende do ano online e voltava a fazer o mesmo. Numa palavra: "Adorei."

Perguntas e Respostas


MMORP... quê?
Em inglês, “massive multiplayer online roleplaying games”. Isto é, jogos de vídeo online em que se encarna uma personagem e se interage com jogadores de todo o mundo. Os MMOGS são o mesmo, sem role-playing.


Jogar sai caro?
Os melhores jogos são pagos. Depois de comprar o WoW, por exemplo, ainda tem de pagar cartões bimestrais que custam custam €36. O Guild Wars, por outro lado, não tem mensalidade.

São viciantes?
Muitíssimo. Sobretudo por causa do aspecto social. Depois, é difícil chegar ao fim. Só o WoW tem 80 níveis. Já há empresas a quem pode pagar para passarem as primeiras etapas por si, como a IGE. Mas é batota e sai caro.

E pode ganhar-se dinheiro?
Sim. Nos EUA, há convenções de Guild Wars com prémios que chegam aos 70 mil euros.

Faz mal à saúde?
Como em tudo, o segredo está na moderação. Em 2005, um coreano morreu depois de estar 50 horas a jogar sem parar. Estudos recentes indicam que os MMORPG ajudam nas relações sociais e podem desenvolver o raciocínio.

 



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