Deus Pinheiro, recuperado por Ferreira Leite para a política nacional activa (estava no Parlamento Europeu há 4 anos) disse ao i que a situação nacional obriga a que PS e PSD procurem, com o apoio do Presidente da República, um entendimento sobre a governação do país. Estranho?
Existe uma ideia, aceite genericamente em muitos países, que diz que um país deve ter grandes linhas de governação comuns. Isso obriga, claro, a que os partidos que governam se ponham de acordo sobre essas orientações. Portugal não é excepção: foi feito até pacto entre Marques Mendes e Sócrates para reformar a justiça portuguesa. O princípio nestes acordos partidários é bem simples: o mais importante para o sucesso de um país é ter uma administração pública estável, decisões que permaneçam além das flutuações políticas, partidos que se entendam sobre as necessidades essenciais do país. Seria disso que falava, então, Deus Pinheiro?
Como se percebe, fazendo Zoom nas páginas 14 a 19 desta edição, as diferenças entre os programas dos dois partidos não são opostas. As ideias apresentadas por Ferreira Leite poderiam ser apresentadas pelo PS. Não há nada de radicalmente oposto entre PS e PSD quando Ferreira Leite promete baixar a taxa social única (medida que aliviaria muito os custos do trabalho nos próximos anos), quando decide reavaliar o TGV ou no instante em que se compromete suspender a avaliação dos professores - e são estas as grandes diferenças entre os programas. Dito de outra forma: ideologicamente, estas ideias cabiam no PS, como as do PS cabiam no programa do PSD. Sim, o detalhe de usar instituições de solidariedade social em vez do Estado (no apoio social) é talvez a dimensão mais ideológica do programa - menos Estado, o mesmo serviço. Mas nada opõe as ideias apresentadas por Ferreira Leite ao desejo de Deus Pinheiro - que PS e PSD governem juntos nos próximos quatro anos.
Quem vai votar no próximo dia 27 quer escolher. Ferreira Leite vincou muito a ideia de verdade, num discurso fortemente político, e o compromisso de que cumprirá o que promete. Para ela, isso distingue-a de José Sócrates. Num texto aqui escrito quando se conheceram as listas de deputados, sublinhou-se que Ferreira Leite estaria a colocar experiência e astúcia política na sua bancada parlamentar e esperaria depois pelo tal Governo de entendimento nacional para apresentar novidades nos seus ministros. Ou seja, estaria a antecipar que o resultado eleitoral nunca cavaria um fosso entre os dois partidos, seria uma vitória (para um lado ou outro) à tangente. As próximas semanas serão de clarificação, e os debates também: mas fica evidente o essencial - um governo de bloco central, no campo das grandes ideias políticas, é absolutamente possível. E disso falava Deus Pinheiro. Sócrates e Ferreira Leite já deixaram claro que nunca governarão juntos. O que permite uma conclusão (se é que conclusões são possíveis): o primeiro-ministro será, dos dois, aquele que mais votos receber. O outro demite-se. E o governo, impulsionado por Cavaco, será PS e PSD.




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