Coleccionador

Juntou Eça, Camões e Torga em casa, e não os deixa fugir

por Diana Garrido, Publicado em 27 de Agosto de 2009   
Ao longo de 40 anos Carlos Ventura reuniu um espólio valioso de primeiras edições de obras portuguesas, a par com manuscritos de autores consagrados
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"É uma paixão repentina, como com as mulheres." Era jovem quando se encantou por Guerra Junqueiro, depois apaixonou-se por Eça de Queirós. Seguiu-se Mário de Sá Carneiro e finalmente Miguel Torga. Foi com "A Velhice do Padre Eterno", de Junqueiro, o primeiro amor, que a colecção nasceu.

A sala é forrada a livros. O escritório também. Ao todo conta com 5 mil títulos de primeiras edições. Entre eles "Os Lusíadas", "Os Bichos", "A Confissão de Lúcio", "As Farpas" e todas - todas - as obras de Eça, entre milhares de outras.

Há 40 anos que Carlos Ventura é um bibliófilo e o amor aos livros fez dele um coleccionador de primeiras edições da literatura portuguesa. "Depois fui melhorando e para atingir a perfeição comecei a coleccionar primeiras edições autografadas pelos autores." São as chamadas dedicatórias autógrafas e compõem algumas das primeiras páginas dos livros de Carlos. Há de tudo um pouco: José Cardoso Pires, Carlos de Oliveira, Bernardo Santareno, Lopes Graça e Manuel da Fonseca. Cada livro conta com uma encadernação especial, em pele e letras douradas. Algumas têm mesmo pinturas originais na capa. Uma encadernação pode ir até aos cinco mil euros, chegando por vezes a ser mais cara do que os próprios livros. Sobretudo se for obra do mestre Vítor Santos, "um dos maiores encadernadores do país." De Saramago tem a primeira edição do primeiro livro. Tem como título "Terra do Pecado", é de 1947 e conta com uma dedicatória ao próprio Carlos: "Soube que ele estava em Lisboa e decidi ir ao seu encontro para lhe pedir que assinasse o livro. Ficou muito espantado, perguntou se podia pegar no livro e disse que já nem se lembrava da capa!"

Não gosta de falar de preços, nem avalia o livros assim. Para Carlos é tudo uma questão sentimental: "Se me perguntar quais as obras mais valiosas que tenho, são: 'A Criação do Mundo' (seis volumes) de Torga e o 'Livro de Cesário Verde'", cuja primeira edição só conheceu 200 exemplares. Carlos tem o 96.o.

Palavras à mão Além dos livros, o coração deste coleccionador também bate por manuscritos. "É nas cartas para amigos e familiares que um poeta e um escritor se revela. Num livro mente, inventa." Ao todo são seis mil, divididos entre cartas e livros manuscritos. Num momento, que não deixou de ser solene, apresentou a correspondência entre Eça de Queirós e Ramalho Ortigão, a propósito da publicação de "As Farpas"; as cartas de amor entre os fugitivos Camilo Castelo Branco e Ana Plácido; cartas de Miguel Torga, assinadas com o nome verdadeiro (Adolfo Rocha), dirigidas a um amigo, a quem dá conta - numa letra difícil de descodificar - da morte da sua cadela, pedindo, à laia de favor, "um perdigueiro desempregado", para poder ir à caça. Nem o padre António Vieira fica fora desta colecção. De Sebastião da Gama, José Régio e Alexandre O'Neill tem livros inteiros: manuscritos originais guardados com orgulho e zelo.

Histórias Carlos Ventura é levado por histórias e curiosidades: "Teófilo Braga perdeu os dois filhos no mesmo ano. Os escritores e pensadores da altura juntaram-se e escreveram-lhe um livro intitulado "A Maior Dor Humana", em que cada um contribuiu com um soneto. Camilo Castelo Branco, Filinto de Almeida, João de Deus, Pinheiro Chagas, entre muitos outros, fizeram esta coisa maravilhosa. Hoje, isso seria impensável, saía no jornal, passava uma homenagem na televisão e pronto." Carlos Ventura conta a história segurando um exemplar da primeira edição do livro, encadernada a vermelho. De outra prateleira tira umas encadernações fininhas. Lá dentro estão folhetos de 1756, amarelados pelos séculos, com testemunhos de quem viveu o terramoto um ano antes.

Quem quiser começar uma colecção, saiba que o que não falta por aí são livros raros: "É possível arranjar quase todos os livros, só depende de quanto está disposto a pagar." Carlos, hoje, não compra, só lê: "Já tenho todos os livros que quero."


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