Privatizações

Escândalos da democracia: A primeira vez que o Totta foi espanhol

Publicado em 26 de Agosto de 2009   
Em 1993, Mário Conde revelou que o Banesto tinha 50% do Totta. Foi a polémica em Portugal
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"As instituições permanecem, mas os governos mudam. E o Santander voltará a Portugal." As palavras são de Emílio Botin, o líder histórico do Banco Santander, depois de uma reunião em 1994 com as autoridades portuguesas em que o governo de Cavaco Silva exigiu que a instituição espanhola vendesse os 50% que detinha no Banco Totta & Açores (BTA) a investidores nacionais. A profecia cumpriu-se.

O Santander vendeu a posição que tinha recebido através da compra do Banesto a António Champalimaud. Mas seis anos depois, em 2000, o banco espanhol acabou por voltar e comprar o Totta e Açores, desta vez com a bênção do governo de António Guterres.

Para Alípio Dias, então presidente do banco nacional, o caso Totta/Banesto foi uma falsa questão. O escândalo gerado pela compra camuflada de acções por parte do banco espanhol "foi empolada artificialmente", como aliás o "tempo veio a mostrar", disse ao i.

A história do caso Totta e do apetite espanhol pelo banco é tão antiga como o processo de privatizações em Portugal. O Totta e Açores foi o primeiro banco público a ser vendido, em 1988. Pouco depois nasce a Valores Ibéricos, uma holding que junta accionistas nacionais, como José Roquette e Moniz da Maia, e um parceiro estratégico espanhol, com posições equivalentes. Estávamos no final dos prósperos anos 80 e o Banesto era a sensação da banca espanhola. Liderado por Mário Conde, gestor carismático e figura do jet set, estava a crescer depressa e tinha investimentos relevantes na área industrial.

Segundo Alípio Dias, esta solução accionista permitiu um crescimento sólido e rentável. O BTA tornou-se o maior banco privado português, com projectos de expansão em África e Brasil. O gestor descreve Mário Conde como um homem muito inteligente, que sempre deu confiança à administração portuguesa para fazer o seu trabalho. Não intervinha na gestão. "A relação pessoal e profissional da gestão Totta com Mário Conde foi sempre impecável."

No entanto, em 1993, o banqueiro espanhol disse aos jornalistas que o Banesto afinal tinha já 50% do Totta e rebentou a polémica: a lei portuguesa limitava naquele caso a participação de capitais estrangeiros a 10% (uma disposição que veio a ser considerada contrária à legislação comunitária). Além disso, o reforço de posição do Banesto teria sido feito à revelia dos sócios portugueses, segundo disse José Roquette, e das próprias autoridades nacionais. Veio a saber-se que as acções foram compradas através do advogado Menezes Falcão, que as deu como garantia ao Banesto em troca de financiamento para a aquisição.

Mas enquanto Portugal discutia o controlo espanhol do Totta, o Banco de Espanha fez no final de 1993 uma intervenção surpresa na gestão do Banesto justificada pelo risco de colapso financeiro da instituição. O raide que afastou a gestão do banco apanhou desprevenido Mário Conde, que, em entrevista publicada esta semana no "El Mundo", conta que dias antes conversou com Felipe González sobre a compra do Totta. O ex-banqueiro, que vai publicar "Memórias de Um Preso", acusa o então líder do governo de traição.

Para além do buraco financeiro, as autoridades espanholas tiveram de resolver o embaraço político com Portugal provocado pelo caso Totta. O novo dono do Banesto, o Santander, percebe a hostilidade à presença espanhola e aceita vender a sua posição até final de 1994 a um grupo português. Na véspera de terminar o ultimato, António Champalimaud faz a única oferta, mas impõe uma condição: só compra 50% do Totta se for dispensado de lançar uma oferta pública de aquisição (OPA) sobre o capital em bolsa. O governo aceita e o Totta volta para mãos nacionais. Pelo menos durante cinco anos. Em 1999, é Champalimaud que faz um acordo para vender 40% da holding do seu grupo financeiro ao Santander. O negócio é atacado pelo poder político, mas essa já é outra história.


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